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Indígena Huni Kuĩ é aprovado como professor efetivo de inglês no Ifac após trajetória de superação

Por Redação Folha do Acre 20/04/2026 10:16 Atualizado em 20/04/2026 10:16
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O indígena Clécio Ferreira Nunes Huni Kuĩ, de 24 anos – também conhecido como Muru Inu Bake, na língua Hãtxa Kuĩ – foi aprovado como professor efetivo de inglês no Instituto Federal do Acre (Ifac) após uma trajetória marcada por dificuldades financeiras, longas rotinas de estudo e um processo de construção da própria identidade.Cultura Acre

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Nascido e criado em Rio Branco, no bairro Montanhês, Clécio cursou toda a educação básica em escolas públicas. Depois do ensino médio, formou-se em Letras Inglês na Universidade Federal do Acre (Ufac) e atualmente também faz mestrado, além de graduação em Jornalismo.

Neste domingo (19), data em que se celebra o Dia dos Povos Indígenas, a história de sua aprovação para o Ifac em Cruzeiro do Sul começou a ganhar fôlego em 2023 e teve um desfecho “inesquecível” em fevereiro deste ano, com a nomeação no Diário Oficial da União (DOU).

“Quando vi meu nome na lista de classificados, fiquei sem acreditar. Queria gritar, mas não podia porque era de madrugada”, relatou.

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Motivação e desafios

Clécio decidiu se inscrever no concurso do Ifac ao ver o edital nas redes sociais. “Eu vi que tinha quatro vagas para Letras/Inglês. Aí pensei que quatro vagas era muita coisa e eu precisava só de uma” , relembrou.

O processo ficou suspenso por meses após questionamentos judiciais, o que gerou incerteza. Clécio chegou a cogitar desistir, mas mudou de ideia ao ver candidatos de outros estados se deslocando até o Acre. “Eu vi gente vindo do Maranhão, pedindo indicação de hotel. Foi aí que a chave virou: eu já estava aqui, não ia gastar com passagem e hospedagem” , contou.

Inicialmente, ele não ficou entre as vagas imediatas, mas as chamadas foram sendo feitas ao longo de 2025. A convocação veio no dia 27 de fevereiro deste ano, de madrugada. “Quando vi meu nome na lista, fiquei tão feliz. A primeira pessoa para quem contei foi a minha mãe” , disse.

Vivências e representatividade

Clécio não teve vivência em aldeia na infância, mas o contato com a cultura Huni Kuĩ acontecia dentro de casa. A primeira vez em uma terra indígena foi por volta dos 20 anos, em Feijó.

Na escola, ele enfrentou estranhamento por ter traços indígenas. “Muitas vezes me associavam a asiáticos, como se eu fosse chinês ou japonês” , lembrou.

Sempre teve facilidade com idiomas. Estudou espanhol ainda adolescente e depois inglês em um curso, mesmo com dificuldades de deslocamento. Para o Enem, preparou-se com apoio da escola pública.

Ao passar para Letras Inglês na Ufac, recebeu bolsas acadêmicas que ajudaram na renda familiar, mas enfrentava longas viagens de ônibus. A forma como os professores ensinavam – com participação e fala – influenciou sua escolha profissional. “Eu queria ensinar para que outras pessoas também tivessem essa oportunidade” , afirmou.

Clécio destacou que nunca teve um professor indígena em toda sua trajetória escolar e acadêmica. “Hoje, ao conseguir essa vaga, eu espero ser isso para alguém. Se não tem ninguém lá, não quer dizer que não é para você. Vai lá e seja essa pessoa. Não desista” , encorajou.

Além da docência, ele pretende fazer doutorado, ampliar pesquisas sobre literatura indígena e desenvolver projetos de ensino de inglês voltados a comunidades indígenas. “Sonhe em estar lá e nunca esqueça de onde veio. Tudo o que você aprender na jornada acadêmica precisa voltar para o seu povo” , concluiu.

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