Início / Versão completa
Opinião

COP30 em Belém: o futuro do planeta passa pela Amazônia

Por Por Adriano Gonçalves, para a Folha do Acre 10/11/2025 10:14
Publicidade

Entre promessas de descarbonização, discursos sobre justiça climática e críticas à infraestrutura, a conferência coloca o Brasil no centro do debate global — e desafia o país a transformar discurso em ação.

Publicidade

A Amazônia no centro do mundo

A capital paraense viveu dias históricos ao sediar a 30ª Conferência das Partes da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30). De 10 a 21 de novembro, Belém se tornou o coração do debate ambiental internacional, abrigando líderes de mais de 190 países, cientistas, ambientalistas e povos tradicionais da Amazônia.

A escolha da cidade foi simbólica e estratégica: reconhecer que não há futuro climático sem a Amazônia. O bioma, essencial para o equilíbrio térmico e hídrico do planeta, finalmente ganhou o protagonismo que há décadas se reivindicava nos bastidores da diplomacia ambiental.

Publicidade

“Perder a meta de 1,5°C é uma falha moral e uma negligência mortal”, declarou o secretário-geral da ONU, António Guterres, na abertura da conferência.

O tom do evento foi de urgência e cobrança. As nações foram pressionadas a revisar suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), ampliando metas de corte de emissões e adaptação. Ao mesmo tempo, a justiça climática e a inclusão dos povos indígenas e ribeirinhos foram tratadas como eixos centrais — não mais como pautas paralelas.

O contraste entre discurso e realidade

Enquanto Belém se vestia para receber o mundo, os bastidores revelavam contradições. Obras atrasadas, greves de operários e preços de hospedagem multiplicados por dez geraram críticas e apreensão.

Reportagens internacionais destacaram que a infraestrutura da COP30 provocou impactos ambientais e sociais — ironicamente, em nome da sustentabilidade. A construção de vias e hotéis às pressas levantou questionamentos sobre quanto de floresta foi sacrificada para sediar um evento que prega sua preservação.

“É o desafio da coerência: a COP da Amazônia precisa ser também a COP da verdade”,
escreveu um analista do Le Monde.

Mesmo assim, o clima de otimismo prevaleceu. Para muitos, o fato de o mundo olhar diretamente para a Amazônia já representa uma virada de chave simbólica e diplomática.

Avanços e novos compromissos

O Brasil, anfitrião do evento, buscou reafirmar seu protagonismo climático. O governo apresentou a proposta de uma Aliança Amazônica para o Desenvolvimento Sustentável, com foco em bioeconomia, energia limpa e combate ao desmatamento.

Além disso, a Organização Mundial da Saúde lançou o Plano Belém de Ação em Saúde e Clima, reforçando a ligação entre mudanças climáticas e doenças emergentes — um marco que amplia a agenda ambiental para o campo da saúde pública.

As discussões também destacaram o impasse financeiro: os países do Sul Global exigiram dos ricos compensações justas e financiamento climático concreto, apontando que não é possível cobrar metas de quem ainda luta por sobrevivência básica.

O impacto direto no Acre

Para o Acre, que integra a Amazônia Legal, a COP30 tem implicações profundas. O estado compartilha com o Pará desafios como a pressão sobre a floresta, o desmatamento ilegal e a vulnerabilidade das populações ribeirinhas e indígenas.

Se as negociações resultarem em fundos para bioeconomia, crédito de carbono e pagamento por serviços ambientais, o Acre poderá emergir como um modelo de sustentabilidade regional, transformando sua riqueza natural em ativo econômico e social.

Mas, se a conferência repetir o roteiro das anteriores — repleta de promessas não cumpridas —, o risco é que o Acre e o restante da Amazônia voltem a ser apenas cenário exótico para fotos e discursos de ocasião.

Entre esperança e cobrança

A COP30 encerra-se com a sensação de que o tempo está acabando. As negociações mostraram avanços diplomáticos, mas o planeta segue em rota perigosa: o aquecimento global já ultrapassa limites críticos e a perda da biodiversidade é alarmante.

Belém, neste novembro histórico, mostrou o melhor e o pior da política climática:
a esperança de um mundo mais justo e sustentável, e a dificuldade de transformar promessas em realidade.

“A Amazônia não pode ser apenas um tema, precisa ser um pacto”, afirmou um líder indígena durante a plenária final.

Se esse pacto se concretizar, o Brasil sairá da COP30 com autoridade moral e política para liderar o século verde.

Se não, ficará claro que a Amazônia continua sendo o pulmão do mundo — mas respirando por aparelhos.

*Adriano Gonçalves é jornalista especializado em geopolítica, ciência e meio ambiente

Recomendado
Publicidade
Ver matéria completa no site
Página AMP gerada pelo Tupa AMP Pro com componentes válidos para AMP. Scripts comuns do tema são bloqueados nesta versão para reduzir erros de validação.