Início / Versão completa
Destaque

Missionário norte-americano é expulso após invadir terras indígenas no Acre

Por André Uzêda, do Intercepta 24/07/2023 09:31
Publicidade

Um missionário norte-americano de 30 anos invadiu uma terra indígena no Acre para iniciar um processo de doutrinação evangélica forçada com os integrantes da etnia Madija – um povo considerado de recente contato. Anthony Paul Goddard viajou ao lado da sua esposa, também americana, um filho pequeno e um empregado brasileiro.

Publicidade

Mesmo sem autorização das lideranças locais ou mesmo da Funai, Goddard construiu, em março, uma casa que ocupa 96 metros quadrados e passou a morar dentro da terra indígena Alto Rio Purus, na aldeia Santo Amaro, próximo a foz do Rio Chandless, que corta o estado. E ficou até maio, quando, via ofício escrito pelos seus advogados, comunicou sua saída à Funai. A casa permanece no local.

Goddard nasceu em Ontário, no Canadá, e tem cidadania dos EUA. Ele integra o grupo filantrópico Missões Novas Tribos do Brasil, a NMTB, uma subsidiária da antiga New Tribes Mission – fundada em 1942, em Sanford, na Flórida.

De orientação protestante luterana, as duas organizações buscam converter para o cristianismo povos de várias partes do mundo.  “Mais de 6.000 povos do mundo ainda não foram alcançados. Estamos bem com isso?”, questiona a instituição na página em inglês no Instagram. Um de seus principais objetivos é ensinar, na língua de origem, as lições da bíblia aos alvos das missões. “Precisamos de pessoas treinadas objetivamente para plantar uma igreja com o evangelho pregado na língua daquele povo”, disse o presidente da organização no Brasil, Edward Gomes da Luz, em um vídeo postado para atrair novos evangelizadores.

Publicidade

No site americano, a organização não esconde sua intolerância religiosa, ao afirmar que há “um só Deus” e que “é responsabilidade da igreja glorificar Cristo pregando o evangelho ao mundo e fazendo discípulos em todas as nações”.

Após uma série de denúncias de pedofilia e abusos sexuais em países onde atua, em 2017, a New Tribes Mission mudou o nome para Ethnos 360. A organização brasileira continua com o mesmo nome.

Passe livre para o Brasil

O Intercept mapeou a trajetória de Paul Goddard no Brasil. Formado em estudos bíblicos pela Ethnos 360 Bible Institute, ele foi enviado à América do Sul pela Igreja Gospel Grace, da Virgínia, nos EUA.

Seu primeiro registro de entrada no país foi com um visto temporário, partindo da Flórida e chegando em Manaus. Em 2020, deixou o Brasil – saindo de Goiás e voltando aos EUA, novamente pela Virginia. Retornaria um ano depois, vindo novamente da Flórida e pousando em Brasília. No ano passado, mais um registro de chegada: pousou em Rio Branco, no Acre, após decolar da Carolina do Sul.

Em fevereiro de 2022, no último ano do governo de Jair Bolsonaro, o Ministério da Justiça e Segurança Pública concedeu a Goddard a autorização de residir no Brasil por prazo indeterminado.

Rachelle Goddard, esposa de Paul, também é uma missionária. Seus pais fazem parte da Ethnos 360. Ela veio ao Brasil e, inicialmente, passou a morar em Porto Velho, Rondônia – conforme mostra sua carteira de motorista, obtida no ano de 2012.

Este ano, ao descobrir que Goddard e sua família estavam vivendo na terra indígena Madja, a Funai solicitou apoio da Superintendência da Regional da Polícia Federal do Acre para retirá-los do local. O órgão indigenista se apoiou em uma instrução normativa de 1994, que diz que missões religiosas só poderiam atuar em áreas indígenas se tiverem decisão favorável de um antropólogo – o que não era o caso de Goddard.

Eu procurei os advogados do missionário por e-mail, mas eles não responderam nossos questionamentos. A Funai também foi procurada e informou que enviaria uma resposta – o que acabou não acontecendo.

Já a MTNB, por nota, disse que “é uma instituição de longa data, que busca desempenhar um papel significativo através da atuação eclesiástica”. A organização, no entanto, não respondeu às minhas perguntas específicas sobre se Goddard havia sido orientado a invadir a área pela própria MNTB – tampouco se, após ser notificado pela Funai, teria sido expulso ou punido internamente pela missão evangélica.

A organização se limitou a dizer que é compromisso “instruir rigorosamente garantindo que atuem sempre dentro dos limites legais, apoiados pelos ensinamentos da Bíblia Sagrada, que preceitua a sujeição às autoridades governamentais”.

Contato com brancos elevou suicídio

Em 2017, o Ministério Público Federal encomendou a produção de um laudo antropológico para investigar um problema grave que vinha acometendo a etnia Madija: o alto número de suicídios, sobretudo entre homens, de 16 a 28 anos.

De acordo com o relatório, ao qual o Intercept teve acesso, de dezembro de 2015 até fevereiro de 2017, “foram identificados doze casos de suicídio entre os Madija do Alto Purus”. E entre fevereiro e novembro de 2017, foram relatados mais dois casos, um provavelmente em março e outro em outubro, “ambos entre indígenas do sexo masculino”.

O laudo tenta não ser conclusivo quanto uma “explicação única, consensual e homogênea” para os suicídios recorrentes, mas aponta algumas hipóteses, entre elas “o uso de interpretações provenientes do cristianismo, devido ao processo de conversão evangélica em curso nas aldeias do Alto Purus”.

O relatório mostrou que as mortes por enforcamento – o método mais usado – são “mais comum nas aldeias com maior presença evangélica” e estão relacionadas uma crença trazida pelo cristianismo, a partir de uma doença relacionada ao “demônio”, ao “satanás” ou ao “capeta”.

“A presença missionária por si só já gera turbulências e tensões, porque ela interfere nas dinâmicas de sociabilidade. Primeiro, porque ela instala um conflito. Você tem aqueles que aderem ao discurso pregado e aqueles que resistem e mantém as práticas tradicionais. Eu observei que nas aldeias de contato evangélico com mais adesão, a autoridade religiosa, o pajé, era mais confrontado com sua posição questionada pelos demais”, disse ao Intercept o antropólogo Pedro Moutinho, que assina o laudo do MPF.

Recomendado
Publicidade
Ver matéria completa no site
Página AMP gerada pelo Tupa AMP Pro com componentes válidos para AMP. Scripts comuns do tema são bloqueados nesta versão para reduzir erros de validação.