O PSL (Partido Social Liberal) não vai acabar, mesmo com a saída de seus quadros do presidente Jair Bolsonaro e de parte da bancada de senadores e deputados federais que devem acompanha-lo. Pelo menos no Acre. É o que garante o presidente regional da sigla, o jornalista Pedro Valério de Araújo, ao anunciar que o PSL tem mais de 20 anos de atuação no país e que vai resistir à crise de perda de seus quadros mais ilustres, o presidente da República e seus filhos, o senador Flavio e o deputado federal Carlos Bolsonaro.

No entanto, o Partido continua a apoiar o presidente para onde ele for. Bolsonaro já anunciou que vai fundar um outro Partido, para o qual já tem até nome – “Aliança Brasil”. Valério disse que, apesar disso, o PSL só deixa de apoiar o governo de Bolsonaro se o presidente mudar de filosofia, se rever tudo o que tem pregado até aqui.

“Nós somos ideológicos”, disse o presidente regional. “Apoiamos o Bolsonaro porque o Partido se identifica com o que ele prega e sua saída não fará com que a gente mude de postura”, disse. A seguir, os principais trechos de uma entrevista com o dirigente:

Essa saída anunciada do presidente Jair Bolsonaro não põe por terra os projetos de governo e da própria existência do PSL?

Pedro Valério – De jeito nenhum. O PSL é um Partido que tem mais de 20 anos de existência. Aqui no Acre, nosso Partido foi fundado em 2006. Quando eu assumi a presidência, eu tive que prestar contas à Justiça Eleitoral de 2006 até agora, em 2018.E olhe que o Partido tinha como presidente um ex-juiz de Direito, o doutor Pedro Longo. Só que o Partido não tinha vida orgânica. Era uma sigla que funcionava dentro de uma pasta e, pior que isso, era um Partido liberal e conservador e aqui estava aliado à esquerda, ao PT e à Frente Popular, infelizmente. A política também tem dessas coisas.

Mas, tudo bem. Só que eu perguntei se, com a saída de Bolsonaro, o Partido vai continuar no governo?

A gente não pode negar que a saída do presidente do partido nos causa um certo abalo – até porque a saída dele está acontecendo depois de uma cizânia interna que se tornaram públicas. Mas respondendo a sua pergunta: o presidente pode até sair do PSL, mas o PSL não sairá do governo dele enquanto suas bandeiras forem estas, de combate à corrupção, de aplicação de um programa liberal e conservador, aquilo que o Partido sempre defendeu. A não ser que o presidente mude a filosofia e as diretrizes de seu Governo.

E por que essas cizânias? Foi por causa do “laranjal”, como foram chamadas algumas candidaturas irregulares, em Pernambuco e em Minas Gerais?

Na verdade, há erros dos dois lados. O chamado “laranjal”, a bem da verdade, isso acontece em todos os partidos. Não há um Partido que esteja imune ao “laranjal”.

Então, já que o senhor admite que existe, explique como é que funciona ou funcionou esse negócio do “laranjal”. Saiu dinheiro para financiar campanhas e candidatos sem o mínimo de representatividade, foi isso?

Como eu já disse, o “laranjal” acontece em todos os partidos. É divulgado apenas o do PSL porque era o Partido do presidente e queriam atacar. Aqui a mesmo no Acre, nós temos notícias de uma candidata que pegou R$ 200 mil para financiar sua campanha de deputada federal e só teve seis votos. Dizem que há até investigação sobre este caso, mas ninguém divulga. Aconteceu, mas como não é do PSL ninguém noticia. Mas isso tudo aconteceu no Brasil por conta da legislação, que obriga o lançamento de 30% de candidatas mulheres e também é obrigado a se depositar 30% dos recursos do Fundo Especial de Campanha, o FSC, na conta delas. À medida em que as mulheres se candidatam e não fazem campanha – e na maioria das vezes e a grande maioria delas são candidatas apenas para preencher a exigência da legislação, porque há a imposição legal sobre isso, e que não é divulgada para a sociedade. Vamos dar um exemplo disso: vamos supor que hajam dez vagas para o lançamento de candidatos. Tem que ser sete homens e pelo menos três mulheres – pode até ser até mais, mas a lei fala em um mínimo de 30%. Pode ter até em por cento de mulheres, mas a exigência inicial é desses 30%. Naquela chapa de dez candidaturas, se lançarmos apenas duas mulheres, só podemos lançar sete homens e assim sucessivamente. Se você tira a vaga de uma mulher, imediatamente caem as vagas de três homens. Está na lei. Na cota feminina, cada mulher que cai, caem três homens. Então o Partido é obrigado lançar candidatas mulheres quase eu na marra, mesmo que elas não tenham votos. Acho que isso é algo que precisa ser repensado. Eu acho que s mulheres têm que vir para a política, mas esta forma tem eu ser repensada. As mulheres, por natureza, são mais honestas que os homens e precisam virem para a política.

Então aquilo que o presidente Bolsonaro disse que era corrupção, dentro do PSL e razão pela qual anunciou sua saída da sigla, não era bem isso?

Ali nunca houve corrupção. Há denúncias, por exemplo, em Minas Gerais. O que tem lá de fato e que foi denunciado? Uma candidata mostrou áudios nos quais o assessor do atual ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, tem um telefonema dele dizendo assim: olha, eu posso te passar R$ 60 mil, você gasta R$ 50 mil na campanha e gasta R$ 10 como quiser. É o que ela diz que ele falou para ela. Mas o repasse não foi feito. Então, é a palavra dele contra a dela e o possível crime não se consumou. Além disso, há outra candidata que disse ter recebido R$60 mil, mas alguém pediu que ela pagasse R$ 30 mil numa gráfica. Se ela pagou, o dinheiro não foi roubado. Ele pode ter sido desviado de sua finalidade, mal empregado, o que é uma diferença grande para o roubo, puro e simples. Não houve dolo. O que houve foi uma malversação, desvio de finalidade. O que se deve fazer constatando-se isso: pedir a devolução dos recursos. Aqui no Acre nós temos um exemplo de um candidato que pegou a doação de um veículo na campanha e está enrolado com a Justiça porque recebeu o veículo do primo, que cedeu o veículo na campanha normalmente, o documento de cessão, o carro estava devidamente legalizado, quitado; o candidato contratou um posto, comprou gasolina para abastecer o veículo, pagou, prestou conta de forma redonda. Quando as contas chegaram no TRE (Tribunal Regional Eleitoral), que puxaram o CPF do dono do veículo, era um taxista, permissionário do serviço público, o que não pode. Esses dois coitados estão sendo responsabilizados pela Justiça a devolver o dinheiro do combustível, algo em torno de R$ 10 mil, por malversação do dinheiro público. Isso é corrupção? Não é. Foi apenas um ato irregular cometido por dois leigos que desconheciam a lei.

Se não houve corrupção, o tal “laranjal”, por que o presidente Bolsonaro ficou tão abespinhado com isso, ao ponto de brigar com o presidente do partido, o deputado federal Luciano Bivar?

Na verdade, o presidente Bolsonaro tem em seu entorno algumas pessoas que exercem sobre ele uma influência negativa…

Isso inclui os filhos dele?

Os filhos e algumas outras pessoas, mas mais os dois filhos mais novos. Como já falei, há excessos e erros dos dois lados. Exemplo: quando a Joice Joice Hasselmann (deputada federal pelo PSL de São Paulo) e o Major Olimpo (deputado federal por São Paulo), dizem que o mal são os três filhos, há aí uma injustiça tremenda. Digo isso porque tenho contato com a família Bolsonaro, participei de várias reuniões com eles, e pude constatar que o senador Flávio Bolsonaro é o oposto dos demais irmãos. Ele é tranquilo, conciliador e veja que hoje o Major Olimpo, a Joice também, dizem coisas horrorosas dele e ele não retruca, engole calado em nome da união. É conciliador e está quieto no canto dele e age nos bastidores para colocar panos quentes em tudo, quando necessário. Ele não é de confronto, é um apaziguador e tem natureza oposta dos irmãos mais novos, que fazem esse papel de incendiários e são dados a fazerem declarações desastrosas. Quando terminou o primeiro turno das eleições, o Bolsonaro tinha mais de 60 por cento das intenções de votos e aí veio aquele vídeo, com o Eduardo Bolsonaro (deputado federal por São Paulo) dizendo que para fechar o STF (Supremo Tribunal Federal) só precisava de um cabo e um soldado. Ai o Bolsonaro começou a cair nas pesquisas e quando veio a eleição, ele estava com índices bem abaixo daquilo com o qual terminou o primeiro turno, por causa daquele vídeo que viralizou e causou uma impressão terrível na campanha. Agora, ele acaba de fazer outra declaração infeliz com essa história do AI-5. Outra injustiça é dizer que o deputado Luciano Bivar está envolvido no tal “laranjal”. Isso é uma dose de maldade muito alta, porque, na campanha, o Bivar se afastou da presidência do Partido e foi cuidar da campanha dele e só administrava os recursos que caíam para a campanha dele, enquanto o presidente do Partido era o advogado Gustavo Bebiano. Então, a ele não pode ser imputada nenhuma responsabilidade por repasses de recursos à candidaturas “laranjas” porque ele não assinou nada…

Pelo que o senhor está dizendo, mesmo o presidente saindo do PSL, o Partido vai continuar no Governo?

O PSL, segundo o deputado Luciano Bivar, no momento em que todo mundo sabia que o então candidato Jair Bolsonaro seria candidato a presidente pelo Patriotas, o antigo PEN, o Partido Ecológico Nacional. Mas, para usar uma linguagem de futebol, nos 17 minutos do segundo da prorrogação, ele descobriu que o PEN era o autor da daquela ADC (Ação Direta de Constitucionalidade) no Supremo, que soltou o Lula na semana passada. Isso quebrava o discurso do Bolsonaro e implodia sua candidatura à presidência. O Gustavo Bebiano na época chegou a chamar o presidente do Patriotas de vagabundo por ele esconder ou omitir uma informação desta magnitude, já que foram descobrir nos 17 minutos do segundo tempo da prorrogação. Na época, o Bolsonaro ficou sem pai e sem mãe. É tanto que ele perguntou ao deputado Luciano Bivar: o PSL pode ser meu paraquedas? Como ele não tinha mais saída para ser candidato, o PSL, como o paraquedas com um avião caindo, veio para salvar a vida do candidato. Há um documento do PSL assinado com o Bolsonaro sobre o alinhamento das propostas a serem defendidas na campanha.

Dizendo isso, o senhor não acha que a saída do Bolsonaro não demonstraria uma certa ingratidão da parte dele em relação ao Partido que o permitiu chegar ao poder?

Eu não diria isso. Mas é algo incômodo. Mas, falando de propostas, se há um documento assinado em comum acordo em relação às propostas a serem definidas em campanha, de redução do tamanho do Estado, de apoio ao agronegócio e de combate sem trégua à corrupção, e apoio ao empreendedorismo, enfim, de todas as bandeiras defendidas na campanha, se o governo continuar com tais bandeiras e não se afastar delas, o PSL não tem como negar apoio ao governo Bolsonaro. Se fizer isso, o PSL estará negando a si próprio. Então, o Partido vai continuar apoiando o governo do presidente Bolsonaro até o último dia de mandato.

Vai ser assim meio como mulher de malando, apanhando mas continuando o casamento?

Eu não essa comparação, mas se o presidente não mudar o eixo de seu Governo, que vai ao encontro de tudo aquilo que o PSL defende, não tem como o Partido não o apoiar. Estaria negando a si próprio. Então, o Partido vai continuar o governo Bolsonaro independentemente de onde ele estiver

E, no plano local, com essa vinda do coronel Ulysses Araújo para comandar a Polícia Militar, o Partido fica sem candidato a prefeito, não é isso? Vocês estão procurando outro nome?

Estamos, com certeza. O coronel Ulysses é um nome limpo e um homem muito digno. Era o nome que a gente defendia como nosso candidato a prefeito. Graças ao bom trabalho que ele vinha fazendo junto ao governo federal de combate à violência e ao crime, ele foi convidado pelo governador do Estado para vir comandar a Polícia Militar do Acre. Ele aceitou de forma pessoal, já que o convite também fora pessoal. Apenas comunicou ao Partido da decisão mas em nenhum momento envolveu o Partido nesta negociação e o Partido nem poderia exigir que ele não fosse porque nem filiação partidária ele tem, já que é milita da ativa. É claro que, com isso, o Partido está na busca de outro candidato, que tenha o nosso per4fil e que se alinhe aos nossos ideais.

E quem é esse nome?

Nós estamos pensando em alguns nomes mas temos claro que precisamos apresentar para a sociedade um candidato com o perfil do coronel Ulysses. Não podemos tratar de nomes agora porque tudo ainda está em construção. Vamos apresentar um candidato alguém que tenha vencido na vida a partir do próprio trabalho, do próprio esforço e que tenha o nome limpo, sem nenhum tipo de mácula e que tenha capacidade de gestão comprovada e que não tenha nenhum alinhamento com partidos de esquerda.

Seria o Bocalom então ?

Não, o Bocalom está fora dos planos do PSL. Ele não se desfilou ainda não se sabe por quê, mas ele já está fora do PSL porque a situação dele aqui ficou insustentável. Ele tem dito que está num novo time que esse time tem um técnico, que seria o governador Gladson Cameli. Então, que ele seja muito feliz no time em que ele está.

Fonte: ContilNet

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