“Por um Acre de paz. Também na periferia, onde vivem inocentes”, diz jornalista

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Basta de violência. Chega de sentir medo. Chega de receber áudios de parentes e amigos amedrontados pelos ensurdecedores barulhos de tiros. Chega desse silêncio mortal do governador Tião Viana a respeito do assunto. Não toleramos mais declarações tão estúpidas quanto desrespeitosas por parte do secretário de Segurança Pública, Vanderlei Thomas, de que nós, acreanos, temos que nos acostumar com a violência. Não, não temos, não queremos e nem iremos nos acostumar com o derramamento de sangue que está acontecendo no Acre.

É antinatural, é estúpido, violento e cruel. Não é esse o Acre que queremos. Queremos um Acre de paz. Também na periferia. Considero absurdo quando alguém encara como normal quando há tiroteios e vários mortos em áreas periféricas. Quando as matanças são no Caladinho, São Francisco, Sobral, Cidade do Povo é mais fácil para as “autoridades” generalizarem e resumirem a violência a um confronto de facções. Aí os mortos deixam de ter identidade, resumem-se a pessoas periféricas supostamente faccionadas e fica tudo por isso mesmo. Quando as balas são disparadas a esmo na Cidade do Povo, como aconteceu na última segunda-feira (9), quando Maria das Dores, 45 anos, mãe, leva um tiro na cabeça, fica mais fácil para as autoridades fazerem vista grossa. Era só mais uma Maria e por ironia do destino, uma Maria de Dores, certamente acostumada a viver às margens de uma sociedade cruel. Não era ninguém importante, deve ser o que pensam. Jogam a vítima na indigência e culpada por ter “escolhido” morar num lugar habitado por malandros. Mas não é bem assim que são as coisas. Nem todos lá são malandros, bandidos, de comum têm apenas o fato de serem todos pobres.

Eu me criei no bairro Taquari e atualmente moro no Aeroporto Velho, local considerado berço do Bonde dos 13 e tememos dia e noite por nossa segurança e pelo descaso das autoridades. Quem vive em uma região como esta e tem sobrinhos, irmãos adolescentes, teme pela morte duas vezes: aquela que mata em forma de bala ou faca e aquela em que se mata a honra e a história das pessoas.

Temos medo de que todos que moramos lá sejamos contados juntos com os membros de facções e que se morrer um caia na vala comum de dizer que morreu porque era bandido. Chocante ver o secretário de Polícia Civil dizer que no caso da chacina do São Francisco não havia nenhum “santo entre os mortos”. Não havia santos, mas havia cidadãos, filhos de alguém, pais de alguém, sobrinhos, pessoas que teriam tudo para ter um futuro, mas que caíram vítimas da guerra urbana que se estabeleceu no Acre. O Acre pede paz e a população, especialmente a grande maioria que mora nas periferias, pede respeito de nossas autoridades. Acreditem, no Taquari, Caladinho, Cidade do Povo, também moram pessoas de bem que sonham com um futuro melhor.

*Gina Menezes é jornalista e colunista política

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