Gestão Socorro Neri: o debate não é sobre feminismo, é sobre ‘buraquismo’

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A sessão desta quinta-feira (14) na Assembleia Legislativa do Acre (Aleac) foi solene em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, comemorado dia 08 de março, e foi marcado por discursos ocos, choros ensaiados, homenagens vãs e o ‘chororô’ de Socorro Neri (PSB), a prefeita de Rio Branco, que teima em envergonhar seus colegas academicistas, jogando pelo ralo a sólida e privilegiada formação em universidades federais ao abrir mão da racionalidade e apelar para se abrigar em causas que não lhe cabem.

Ao afirmar que a gestão dela é criticada pelo fato de ser mulher, Socorro Neri apela para a falta de argumentos e de vergonha ao tentar esconder sua péssima gestão sob o manto do feminismo. Já vi muita gente se apropriando dos discursos e causas da minoria, mas como Socorro Neri fez hoje foi um novo marco ultrapassado.

Socorro Neri disse que é massacrada nas redes sociais, fenômeno de comunicação para o qual ela dedica uma ojeriza só vista em ditadores e pessoas com sérias dificuldades para lidar com contraditório, e creditou as críticas que sofre em sua gestão ao fato de ser do gênero feminino. Ao não reconhecer a falta de investimento na infraestrutura do município, os péssimos serviços da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), sua inabilidade política e se esconder debaixo de uma discussão sobre gêneros, Socorro Neri resvala para o ridículo.

A prefeita de Rio Branco encerrou a lua de mel com a população da capital acreana, que sempre a teve na mais alta conta pela sua reconhecida capacidade intelectual, tão logo surgiram os primeiros buracos que se transformaram em crateras e jamais conseguiu lidar bem com isso. Birrenta, ‘mimizenta’ e inimiga dos argumentos, Socorro Neri se revelou uma decepção política sem precedentes.

Socorro Neri não lida bem com críticas e em mais de uma ocasião externa ojeriza às redes sociais. Neri como intelectual que é deveria reconhecer os benefícios da liberdade de expressão. As redes sociais, que ela tanto critica, é composta pelos perfis de gente comum nas periferias que utilizam suas páginas para denunciar com humor ou acidez o descaso que se encontram os bairros de Rio Branco. Que bom que temos este recurso e as pessoas têm voz. Melhor ainda é que este é um movimento sem volta que vai crescer com ou sem apoio das Socorros Neris da vida, tão passageiras na gestão quanto o vento no litoral.

Socorro não consegue lidar nem com as redes sociais, com críticas e, tampouco, com o qualquer tipo de objeção da imprensa. Tão logo começaram as críticas e Rio Branco conheceu uma outra Socorro Neri bem diferente da moça elegante, fina, bem educada e com cara de inofensiva que andava pelos setores da Universidade Federal do Acre onde desempenhou o cargo de pró-reitora de Ensino. Socorro Neri deixou sair o verniz da civilidade, do bom senso e da inteligência diante dos questionamentos. Durante a sessão desta quinta, mais uma vez Socorro Neri criticou as redes sociais, que ela qualifica como “terra de ninguém”, sem reconhecer o quão benéfico é termos instrumento de comunicação livre dos controle dos poderesos, brancos e ricos que sempre mandaram no Acre.

Socorro Neri afirmou que tem sido massacrada, esquecendo o equilíbrio de uma gestora que tem a obrigação de ser competente, e adotando um discurso cheio de vitimismo sem razão. Mas o mais grave foi sem dúvida o fato dela afirmar que tem tido a capacidade dela de trabalho atacada por ser mulher. Foi o discurso mais vergonhoso que já vi nos últimos tempos. A professora Socorro Neri, do quadro da Universidade Federal do Acre, onde foi pró-reitora de graduação, a mulher graduada em pedagogia por uma universidade federal, mestra e doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais, jogou no lixo todo investimento de formação intelecutal privilegiado que recebeu com recursos públicos e se abraçou a um discurso permeado pelo esvaziamento e apropriação do discurso de minorias em troca de uma reles publicidade.

Socorro Neri não ser auto responsável por sua gestão, não reconhecer suas falhas, se vitimizar e criticar a livre expressão é inaceitável. Não trata-se de uma qualquer, mas de uma mulher com leitura de mundo, dos fatos e da vivência social. O feminismo é muito importante, mas muito mesmo, para que seja usado por motivos escusos para abrigar a incompetência de uma gestora.

Socorro Neri anda magoadinha porque os rio-branquenses se queixam dos buracos nas ruas de Rio Branco e ao invés de buscar uma saída adulta, responsável e técnica ela prefere usar o vil discurso de que só é criticada por ser mulher. Ora essa, o discurso não é sobre feminismo, embora eu, negra, pobre e favelada, possa falar com propriedade sobre isso. O discurso é sobre ‘buraquismo’ e disso quem entende é Socorro Neri, afinal ela é quem tem a Empresa Municipal de Urbanismo (Emurb) sobre sua batuta.

Preservemos a causa feminista e nos livremos dos oportunistas que buscam debaixo da sombra da causa esconder sua incapacidade. Pouco importa se Socorro Neri é mulher, homem, transexual ou nenhuma das alternativas. O que importa é a capacidade e as responsabilidades dela como prefeita da maior cidade do Acre.

Por todo investimento educacional que recebeu, o mínimo que Socorro Neri deve fazer é abandonar o reles discurso do qual se apropriou indevidamente, pedir desculpas por não respeitar a liberdade de expressão e considerar que as redes sociais é um importante instrumento em um lugar onde ricos, brancos e bem nascidos sempre são os privilegiados.

*Gina Menezes é jornalista, colunista e sócia-fundadora do Jornal Folha do Acre

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