‘Enquanto morrerem crianças negras e pobres o governo do Acre não vai se importar’, diz jornalista

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No últimos dois meses, de acordo com levantamento feito pelo site Folha do Acre, pelo menos 10 adolescentes e crianças foram mortos sem quaisquer chance de defesa. A pequena Maria Kauane Araújo de Silva, 11 anos, moradora do bairro Preventório, periferia de Rio Branco, foi morta enquanto jantava no casebre que a família mora.

Na última quarta-feira (16), um outro garoto, também de 11 anos, foi ferido a tiros enquanto participava de atividade religiosa no bairro Mocinha Magalhães, também na periferia de Rio Branco. De comum, os dois tem o fato de serem pobres, favelados, inominados e esquecidos diante de uma cidade em guerra urbana e sob o suposto comando de facções criminosas.

No caso ocorrido no Preventório, os moradores da região acusam o Batalhão de Operações Especiais (Bope) de ter entrado atirando no bairro. A polícia desmente a versão popular e diz que foi recebida a balas por membros de uma facção criminosa. Não importa a versão ou contexto, o que contou mesmo foi a morte precoce e violenta de uma criança de 11 anos que se sentia segura enquanto jantava no recinto do seu lar. São vítimas pobres, sem sobrenome famoso, nem defensores.

Ontem à noite eu procurei conversar com um conselheiro tutelar, que não citarei o nome para não expor o trabalhador, para saber o que ele achava disso tudo, e o que ele me disse me fez estremecer.

“ Sim, é um tema que abrange o Conselho Tutelar, apesar de que o ato infracional que eles talvez tivessem fazendo para entrar em confronto com a polícia não é bem nosso papel no conselho”, respondeu o rapaz para depois discursar sobre lugares comuns como esporte e cultura para jovens. Além de omisso na discussão que envolve a área dele, o rapaz também é desinformado. Eu tive que contar a ele que nos dois casos das crianças de 11 anos não havia denúncia de ato infracional ou confronto com a polícia. Mas mesmo que houvesse a denúncia, o Conselho Tutelar e nenhum outro órgão de defesa aos menores poderia se calar. Estamos falando de tentativas e de homicídios consumados de duas crianças. A morte desses dois meninos me chocou, mas me choca em dobro o silêncio ensurdecedor das autoridades frente ao assunto. Absurdo que ninguém se manifeste.

Não vou nem citar aqui o caso do menor de 15 anos que em março foi morto a pauladas no município de Senador Guiomard e o outro também de 15 que foi morto em suposto confronto com a Polícia Militar no início da semana lá em Brasiléia, pois de acordo com a ‘lei da selva’ e a ‘lei do forte’, eles são seres inomináveis, criminosos sem rosto, pois pesava contra eles a denúncia de integrar uma facção criminosa.

Segundo os julgadores de plantão, que nem parecem ter filhos, ele era uma semente do mal, pura e simplesmente isso. Não se dão o trabalho de pensar que esses dois adolescentes, pobres e sem chances na vida foram enredados pelo mundo do crime, presas fáceis no mundo das drogas que é financiado por um sistema corrupto e permissivo.

*Gina Menezes é repórter do site Folha do Acre e colunista política

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