Diagnóstico da segurança: delegados em guerra, secretário afastado suspeito de ligação com CV e 30 corpos no chão

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Contrariando o otimismo do secretário de Segurança Pública, Paulo César, de que nos primeiros 10 dias de janeiro devolveria sensação de segurança aos acreanos, o Acre registrou no primeiro mês de janeiro mais de 30 assassinatos, a maioria execuções, uma briga interna entre delegados que expôs as vísceras da instituição, ocasionada por uma suposta ‘queda de braço’ entre o grupo do vice-governador Wherles Rocha (PSDB) e outras forças políticas, e a polêmica divulgação de um processo que correu em segredo de Justiça onde mostra a suposta ligação entre o secretário de Polícia Civil, Rêmulo Diniz, afastado do cargo na última quarta-feira (30), e o tenente da Polícia Militar, J.Farias, que agia dentro da cooperação policial a serviço de líderes do Comando Vermelho. Ao invés da sensação de paz, o que os acreanos sentiram foi terror ao ver que havia braços de facções criminosas dentro das instituições e como autoridades constituídas.

Os acreanos que assistiram estupefados a escadala da violência no estado em 2017 e 2018, motivada especialmente por suposta guerra entre facções criminosas, presenciaram incrédulos o renomado tenente do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), o popular Farias, ser preso sob acusação de cumprir ordens de lideranças do Comando Vermelho (CV) e a ligação incestuosa de Farias com o delegado Rêmulo Diniz, quando este era titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

Trechos das conversas interceptadas pela polícia apontam que Rêmulo adulterou documentos, falsificou boletins de ocorrência e manobrou para que inquéritos de outras delegacias fossem encaminhados a ele. Vamos convir que não fica bem termos Comando Vermelho, tenente Farias do Bope e delegado Rêmulo Diniz tudo no mesmo processo judicial. Mais escabroso ainda é saber que a Polícia Militar apreendeu 400 kgs de drogas, mas só 280 foram apresentados à imprensa como resultado da operação. O caso não é novo, novidade mesmo foi os acreanos serem alertados sobre o caso através de matéria divulgada pelo site UOL.

No mesmo dia em que o Acre pegava fogo por ter o secretário afastado do cargo suspeito de envolvimento com Farias, o braço fardado do Comando Vermelho, mais um jovem de 20 anos foi executado com um tiro na cabeça. O corpo estendido no chão batido de um terreno baldio sequer foi identificado, era supostamente mais um “Zé ninguém” que não merecia a atenção do Estado, grupos políticos aliados e rivais do vice-governador Wherles Rocha travavam árdua luta digital para ver quem vazava mais informações sobre uma briga interna dos delegados de Polícia Civil. A ‘cortina de fumaça’ foi posta bem alto para tirar atenção. Estranhamente as autoridades não quiseram saber onde foi parar 120 kgs de droga desviada, armas de fogo apreendidas que jamais foram apresentadas em delegacias e nem da adulteração de documentos oficiais. Os olhos foram tirados dos crimes graves que resultam em sangue derramado e começou uma ‘caça às bruxas’ para saber quem vazou a informação ao jornalista do UOL.

Ora essa, nesse momento o menos grave é saber quem vazou. O mais grave é o teor do vazamento e inércia diante da tomada de decisões. Restou claro que Rêmulo Diniz ascendeu ao cargo de secretário de Polícia Civil já depois dos autos da Operação Sicário ter sido remetida ao Judiciário e a denúncia contra ele ter sido enviada à Corregedoria, que cabe investigar os delegados. O corregedor afirmou desconhecer as denúncias contra Rêmulo: “nunca ouvi falar”. Há algo de muito errado em tudo isso. Os acreanos sentiram medo, terror e perplexidade nos últimos 30 dias, menos a sensação de paz que o secretário Paulo Cesár garantiu.

*Gina Menezes é jornalista, colunista política e sócio-fundadora do jornal Folha do Acre.

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