As eleições de 2026 têm tudo para marcar uma nova era na democracia brasileira. Não apenas pela disputa entre candidatos, partidos ou ideologias, mas pela crescente influência de um agente que não pede votos, não participa de debates e não presta contas ao eleitor: o algoritmo.
Durante décadas, o debate público foi mediado por jornais, rádios e emissoras de televisão. Hoje, boa parte da população recebe informações por meio de redes sociais, plataformas digitais e mecanismos de busca. O que aparece na tela de cada cidadão não é fruto do acaso. É resultado de cálculos complexos realizados por sistemas de inteligência artificial que selecionam, priorizam, recomendam e, em alguns casos, ocultam conteúdos.
A questão central é que esses sistemas passaram a exercer um poder sem precedentes sobre a circulação de informações políticas.
Nos últimos anos, governos, tribunais e plataformas digitais intensificaram esforços para combater a desinformação, especialmente após episódios de manipulação eleitoral observados em diversos países. A preocupação é legítima. O avanço das tecnologias de inteligência artificial tornou possível criar vídeos, áudios e imagens extremamente convincentes, capazes de induzir o eleitor ao erro em poucos minutos.
Nesse contexto, surgiram regras mais rígidas para monitorar e remover conteúdos considerados falsos ou enganosos. As plataformas passaram a investir bilhões de dólares em sistemas automatizados de moderação. O problema é que a velocidade exigida por esse processo tornou impossível a análise exclusivamente humana.
A consequência foi a transferência de parte dessa responsabilidade para algoritmos.
São eles que identificam padrões suspeitos, classificam publicações, reduzem alcance, removem conteúdos e, em determinadas situações, suspendem perfis inteiros.
Mas algoritmos não são juízes.
Eles não possuem formação jurídica, não compreendem plenamente contexto social, ironia, sátira, crítica política ou nuances constitucionais. Operam com base em probabilidades, padrões estatísticos e critérios previamente programados.
O risco surge quando decisões com impacto direto sobre o debate democrático passam a ser tomadas por sistemas que funcionam como verdadeiras caixas-pretas.
Se um candidato, jornalista ou cidadão tiver uma publicação removida, quem garante que houve uma avaliação justa? Se determinado conteúdo tiver seu alcance reduzido, quem assegura que a medida não influenciará a percepção pública de um tema relevante?
Mais preocupante ainda é a falta de transparência.
Na maioria das vezes, o cidadão comum não sabe exatamente por que determinada publicação deixou de alcançar o público esperado. Tampouco conhece os critérios técnicos utilizados para classificar conteúdos como potencialmente problemáticos.
Estamos diante de uma transformação silenciosa do espaço público.
Se no passado o debate girava em torno da liberdade de imprensa, agora surge um novo desafio: a liberdade de alcance.
Não basta ter o direito de falar. É necessário que a mensagem possa efetivamente circular.
Naturalmente, isso não significa defender um ambiente digital sem regras. A democracia precisa se proteger contra fraudes, campanhas coordenadas de manipulação, robôs automatizados e conteúdos fabricados para enganar o eleitor.
A questão é outra.
Quem fiscaliza os mecanismos que fiscalizam a informação?
Quem supervisiona sistemas capazes de interferir na visibilidade de discursos políticos?
Quem garante que erros algorítmicos não produzam efeitos eleitorais irreversíveis?
Essas perguntas estão sendo debatidas em democracias do mundo inteiro. Nos Estados Unidos, na Europa e em diversas nações da América Latina, cresce a preocupação com o poder concentrado nas grandes plataformas digitais e em seus modelos automatizados de moderação.
O Brasil não está imune a esse fenômeno.
As eleições de 2026 poderão representar o maior teste já realizado sobre a convivência entre inteligência artificial e democracia. O desafio será encontrar um equilíbrio que permita combater a mentira sem sufocar a liberdade, proteger o eleitor sem tutelar sua capacidade de julgamento e garantir segurança informacional sem criar mecanismos opacos de controle do discurso público.
A história ensina que toda forma de poder necessita de limites, fiscalização e transparência.
Isso vale para governos.
Vale para tribunais.
Vale para partidos políticos.
E deve valer também para os algoritmos.
Porque, em uma democracia madura, ninguém deveria exercer influência sobre milhões de eleitores sem prestar contas à sociedade.
Especialmente quando esse poder é invisível.
*Adriano Gonçalves é jornalista, colunista político, e bacharelando em Direito

