No começo do feriado de Corpus Christi, no fim de semana passado, peguei um livro para reler. Era O Cavaleiro Preso na Armadura, de Robert Fisher. A história é simples: um homem passou tanto tempo usando uma armadura que acabou esquecendo quem era de verdade. O que no início servia para protegê-lo acabou virando uma prisão.
E fiquei pensando que isso acontece com muito mais pessoas do que a gente imagina.
Não com armaduras de ferro, claro.
Mas com outras armaduras.
A do cargo.
Da profissão.
Da aparência.
Do sucesso.
Da aprovação dos outros.
Da necessidade de parecer forte o tempo todo.
Tem gente que passa a vida tentando mostrar que está tudo certo. Trabalha, sorri, faz planos, posta foto, segue a rotina. Mas, lá no fundo, já não sabe mais quem é.
Vai vivendo no automático.
Acorda, trabalha, come, dorme.
Acorda, trabalha, come, dorme.
E os dias vão passando.
O problema é que ninguém abandona a própria vida de uma hora para outra.
Isso acontece devagar.
Começa quando a gente para de conversar com quem gosta.
Quando se afasta dos amigos.
Quando deixa de lado sonhos que um dia fizeram sentido.
Quando abandona coisas simples que davam alegria.
Quando passa a viver apenas para cumprir obrigação.
E, sem perceber, vai ficando cada vez mais distante de si mesmo.
A vida de hoje ensinou a gente a correr atrás de dinheiro, reconhecimento, curtidas, estabilidade e resultados. Mas quase nunca ensina a parar e perguntar:
Eu ainda gosto da pessoa que me tornei?
Às vezes tenho a impressão de que estamos todos correndo sem saber exatamente para onde.
Talvez seja por isso que existe tanta gente cansada.
E não estou falando de cansaço físico.
Estou falando daquele cansaço que vem de dentro.
Da sensação de estar carregando um peso que ninguém vê.
Às vezes a gente pensa que as grandes tragédias acontecem de repente.
Mas nem sempre é assim.
Muitas delas começam muito antes.
Começam quando alguém deixa de sonhar.
Quando se afasta das pessoas.
Quando perde a capacidade de enxergar beleza nas coisas simples.
Quando começa a se sentir sozinho mesmo estando cercado de gente.
E, aos poucos, deixa de encontrar motivos para continuar seguindo em frente.
Talvez uma das maiores mentiras que aprendemos seja que ser forte significa aguentar tudo calado.
Não significa.
Ser forte também é pedir ajuda.
É dizer que não está bem.
É admitir que está cansado.
É reconhecer que não consegue carregar o mundo inteiro nas costas.
No fim das contas, a pergunta mais importante não é quanto dinheiro a gente ganhou, quantos títulos conquistou ou quantas pessoas nos admiram.
A pergunta é outra:
Você ainda reconhece a pessoa que existe por trás da armadura?
Confesso que essa pergunta ficou martelando na minha cabeça depois que fechei o livro.
Porque existe um abandono quando alguém deixa uma casa.
Existe outro quando alguém deixa uma cidade.
Mas existe um abandono muito mais silencioso.
É quando a pessoa abandona a si mesma e continua vivendo como se estivesse tudo normal.
E talvez seja justamente aí que comecem as perdas mais profundas da vida.
*Jamisson Neri é bacharel em Direito, especialista em Processo Penal e tenente-coronel da Polícia Militar do Estado do Acre

