O ataque ocorrido nesta ultima terça-feira (5) no Instituto São José, em Rio Branco, recolocou no centro do debate nacional uma preocupação que pesquisadores brasileiros acompanham há alguns anos: o crescimento de comunidades digitais marcadas por misoginia, ressentimento social e discursos extremistas direcionados principalmente ao público masculino juvenil.
O atentado, cometido por um adolescente de 13 anos, deixou duas servidoras da escola mortas e outras duas pessoas feridas. As investigações ainda estão em andamento e as autoridades não divulgaram conclusão oficial sobre a motivação do crime nem sobre eventual vínculo do autor com grupos online extremistas. Ainda assim, pesquisadores e educadores afirmam que o episódio ocorre em meio a um cenário de aumento da violência escolar e da radicalização juvenil no Brasil.
A cientista social Amanda Dornelles, professora da rede pública e formada pela Universidade Federal do Acre, afirma que casos desse tipo não podem ser interpretados apenas como consequência de conflitos individuais ou bullying.
“Existe uma reação patriarcal ao avanço das mulheres. E sempre vem uma onda reacionária. Inclusive o próprio fenômeno do bolsonarismo pode ser considerado parte desse backlash antifeminista. A sensação de que os homens estavam perdendo o poder, estavam perdendo a sua masculinidade”, disse em entrevista à Folha do Acre.
A palavra “redpill”, hoje frequentemente associada a grupos masculinos radicais na internet, surgiu a partir do filme The Matrix. Nas redes sociais, o termo passou a representar a ideia de que determinados homens teriam “despertado” para uma suposta verdade sobre relações sociais, feminismo e masculinidade. Pesquisadores apontam que parte dessas comunidades atuam difundindo conteúdos misóginos, teorias conspiratórias e discursos de hostilidade contra mulheres e outros grupos minorizados.
Um estudo publicado em 2024, na plataforma arXiv, da Cornell University, pelo pesquisador Ergon Cugler de Moraes Silva, identificou o forte crescimento dessas redes no Brasil. O levantamento analisou comunidades brasileiras do telegram ligadas a pautas “anti woke”, “anti gênero”, revisionismo histórico e discurso de ódio.
Segundo a pesquisa, 43 grupos somavam mais de 154 mil usuários e cerca de 1,2 milhão de interações até agosto de 2024. O estudo aponta que as menções a conteúdos “anti woke” cresceram mais de 1.000% entre 2019 e 2021.
O pesquisador afirma que esses espaços digitais funcionam não apenas como fóruns ideológicos, mas também como ambientes de pertencimento emocional para jovens vulneráveis.
“Criam espaços onde adolescentes encontram respostas simples para dilemas complexos. Um lugar onde suas frustrações são interpretadas como provas de que estão sendo enganados pelo sistema”, escreveu Ergon em artigo publicado pelo Jornal da USP.
Em outro trecho, ele afirma que muitos usuários passam a enxergar esses grupos como um canal de reconhecimento simbólico.
“De ‘beta submisso’ a ‘alpha redpillado’, este deixa de ser visto como vítima e passa a se enxergar como parte de uma elite desperta.”
Para Amanda Marques Dornelles, adolescentes ainda em formação emocional tornam-se particularmente suscetíveis a esse tipo de discurso.
“Ele ainda é um candidato a ser um adulto. Nesse momento, é muito fácil ser moldado. Tanto para coisas boas quanto ruins”, afirmou.
Ela também diz que existe uma reação crescente contra debates ligados a direitos humanos, igualdade de gênero e diversidade.
“Hoje em dia existem debates que na minha época não existiam. As próprias meninas e minorias estão com o senso crítico muito mais apurado. E isso gera reação.”
Amanda Marques Dornelles também questiona interpretações que atribuem massacres escolares exclusivamente ao bullying. Segundo ela, o perfil predominante dos autores de ataques registrados no país precisa ser analisado dentro de questões sociais mais amplas ligadas à masculinidade, ressentimento e radicalização online.
“Eu sempre sou receosa com essa noção de colocar tudo como culpa do bullying. Porque, se o bullying fosse responsável por isso, a gente veria travestis promovendo massacres. E não vemos”, afirmou.
A cientista social acrescenta que grupos historicamente mais expostos à violência social frequentemente aparecem mais como vítimas do que como autores desse tipo de ataque.
O crescimento da violência escolar no Brasil aparece em diferentes levantamentos recentes. Relatório do D3e — Dados para Debate Democrático na Educação — identificou 42 ataques a escolas brasileiras entre 2001 e 2024. Mais da metade ocorreu entre 2022 e 2024.
O levantamento também aponta que 77,7% dos autores tinham menos de 18 anos e que, desde o ataque de Realengo, em 2011, 27 dos 38 ataques registrados apresentaram evidências de interação dos autores em ambientes virtuais.
Outra pesquisa publicada pela revista Pesquisa FAPESP mostrou que os registros de violência interpessoal em escolas brasileiras passaram de 3,7 mil casos, em 2013, para 13,1 mil em 2023.
O economista Daniel Cerqueira afirmou à publicação que o ambiente de radicalização política e a normalização de discursos agressivos contribuíram para deteriorar a convivência social e escolar.
Já a psicóloga Angela Soligo afirmou que episódios de racismo, misoginia e homofobia frequentemente são tratados apenas como bullying, o que impede respostas mais profundas.
“Denominar atitudes de racismo e misoginia como bullying acaba escondendo a razão por trás das intimidações”, afirmou.
Amanda Marques Dornelles também defendeu maior regulamentação das plataformas digitais.
“A regulamentação precisa ser urgente. Esses grupos de ódio são altamente lucrativos para as plataformas”, disse.
Ela afirmou ainda que existe preocupação entre professores sobre o risco de novos episódios.
“A imagem que passa para outras pessoas é que, se você fizer uma atrocidade dessas, seu nome vai ficar em evidência. Isso pode servir de incentivo.”
Enquanto a investigação segue em andamento, o caso do Acre passa a integrar uma sequência de episódios que especialistas já tratam como um fenômeno nacional ligado à radicalização juvenil, à violência digital e ao enfraquecimento das redes de acolhimento social dentro e fora das escolas.
