Verde por fora, vermelho por dentro: no PV, Virgílio Viana tem apoio de secretário nacional da Juventude do PT

Por Aikon Vitor, da Folha do Acre

A política acreana, convenhamos, tem um talento especial para produzir situações que flertam com o inusitado e às vezes passam direto para o campo da ironia pura. A mais recente delas atende pelo nome de Virgílio Viana.

Sim, ele escolheu o PV. Sim, todo mundo já sabe. E não, o problema nunca foi esse.

O que está dando pano pra manga, e gerando um belo bafafá na esquerda local, é o conjunto da obra. Porque Virgílio não saiu do PT. Mas também não ficou. Preferiu algo mais criativo. Uma espécie de independência assistida, em que se troca de partido sem abrir mão de absolutamente nada que importa.

E quando se diz nada, é nada mesmo.

Filho do ex-governador Tião Viana e sobrinho de Jorge Viana, Virgílio já começa o jogo com um leve empurrãozinho familiar. Até aí, tudo dentro do script tradicional da política. O problema é quando o roteiro tenta se vender como inovação.

A explicação oficial veio em tom elevado. Fala-se em pluralidade, em ampliar o debate, em fugir daquela política de ou é isso ou é aquilo. Um discurso bonito, quase de seminário universitário. Daria até aplauso, se não fosse o pequeno detalhe da prática.

Porque, na prática, o que se vê é o seguinte: o rapaz vai para o PV e leva o PT junto.

Sim, porque entre os apoiadores já aparece Melque Alves, jovem nortista, estudante de enfermagem, coordenador do Coletivo Paratodos-AC, atuante no movimento negro, vice-presidente da Executiva Regional do PT no Acre e secretário nacional de organização da Juventude do PT. Melque também é visto como pupilo político de Sibá Machado.

Ou seja, não é só uma afinidade ideológica, é praticamente uma mudança de endereço com a mudança sendo feita pela mesma equipe.

É o famoso mudou, mas continua o mesmo.

E é aqui que a coisa ganha contornos quase cômicos.

A crítica de que o PT, às vezes, não trata os aliados no mesmo horizonte até poderia render um bom debate interno. Mas perde um pouco da força quando, logo em seguida, o novo projeto político passa a depender justamente de quadros ligados ao partido criticado.

Fica parecendo aquela situação clássica: reclama do time, mas continua jogando com a mesma escalação.

Nos bastidores, o comentário é inevitável. Tem gente chamando de estratégia. Tem gente chamando de esperteza. E tem gente que já simplificou tudo em uma frase que resume bem o espírito da coisa: mudou a cor da camisa, mas o time é o mesmo.

E talvez seja exatamente isso que esteja causando tanto barulho.

Porque não é que Virgílio tenha ido para o PV. Isso, repita-se, já foi assimilado. O que incomoda, e diverte ao mesmo tempo, é a tentativa de vender essa movimentação como algo novo, quase disruptivo, quando, no fundo, ela parece apenas uma reorganização bastante familiar.

No fim das contas, a política segue nos brindando com suas pequenas pérolas.

E essa, convenhamos, é daquelas difíceis de ignorar: um candidato verde, com discurso de pluralidade, e um belo apoio vermelho logo ali, garantindo que nada mude demais.

*Aikon Vitor é jornalista e ativista político

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