Quando o ser humano deixa de ser humano: o fenômeno Therian e o vazio da identidade moderna

Por Lúcio Costa

Nos últimos tempos, um comportamento tem chamado atenção e causado estranheza: pessoas que se identificam como animais.

Chamam-se therians.

Não é fantasia.

Não é metáfora.

É identidade.

E então surge a pergunta inevitável: o que está acontecendo com o ser humano?

Mais do que um comportamento, um sintoma.

Antes de qualquer julgamento apressado, é preciso entender: nem tudo que parece estranho é, automaticamente, doença.

Mas também é perigoso normalizar tudo.

O fenômeno dos therians não pode ser analisado apenas como “liberdade de expressão” ou “individualidade”.

Ele levanta uma questão mais profunda: estamos diante de uma nova forma de identidade… ou de uma geração emocionalmente perdida?

A crise da identidade humana.

Vivemos uma época onde tudo é questionado: valores, papéis, limites… e agora, até a própria natureza humana.

Nunca foi tão difícil responder uma pergunta simples: “Quem eu sou?”

Quando a base da identidade se fragiliza, o indivíduo começa a buscar pertencimento em qualquer lugar, até fora da própria condição humana.

E isso não é sobre animais.

É sobre vazio.

Liberdade sem direção vira desorientação.

A liberdade é uma conquista.

Mas quando ela não vem acompanhada de estrutura, responsabilidade e realidade, ela pode se transformar em confusão.

Nem toda forma de auto identificação é saudável.

Nem toda expressão é sinal de evolução.

Às vezes, o que parece “expressão de quem eu sou”…é, na verdade, fuga de quem eu não consigo ser.

Estamos diante de problemas psíquicos?

Essa é a pergunta mais sensível.

Não é correto rotular todos os casos como transtornos.

Mas também não é honesto ignorar que alguns comportamentos podem, sim, estar ligados a:
dificuldades emocionais, necessidade extrema de pertencimento, confusão de identidade,
fragilidade psicológica.

Ou seja, não é sobre condenar pessoas, mas também não é sobre romantizar qualquer comportamento.

O perigo do silêncio e da superficialidade.

Vivemos um tempo em que questionar virou risco.

Discordar virou ataque.

E refletir virou problema.

Mas fugir da discussão não resolve.

Quando a sociedade deixa de debater temas complexos com seriedade, ela abre espaço para extremos: ou a repressão cega…ou a aceitação sem critério.

O que isso revela sobre nós?

Talvez o fenômeno dos therians diga menos sobre “ser animal”…e mais sobre o que estamos deixando de ser como humanos.

Estamos mais conectados e mais vazios.

Mais livres e mais perdidos.

Mais expressivos e menos estruturados.

E quando o ser humano perde a referência de si mesmo, qualquer identidade pode parecer suficiente.

Vamos refletir.

Não se trata de atacar.

Nem de aceitar tudo sem pensar.

Trata-se de algo mais sério, entender até onde vai a liberdade e onde começa a perda da própria essência.

Porque quando o ser humano deixa de reconhecer quem é…o problema não é o que ele escolhe ser.

É o que ele deixou de compreender.

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