A nova edição do relatório Conflitos no Campo Brasil, divulgada pela Comissão Pastoral da Terra, aponta um cenário contraditório no país: enquanto o número total de conflitos caiu em 2025, a violência letal avançou, especialmente na região amazônica.
Segundo os dados, foram registrados 1.593 conflitos no último ano, uma redução de 28% em relação a 2024. Em sentido oposto, o número de assassinatos dobrou, chegando a 26 vítimas. A maior parte desses casos se concentrou na Amazônia Legal, com registros em Pará, Rondônia e Amazonas.
O relatório destaca que a dinâmica da violência na região está cada vez mais ligada à disputa por terra e recursos naturais, em áreas marcadas por desmatamento, garimpo e expansão agropecuária. Esse cenário também tem sido associado à presença crescente do crime organizado.
Um dos episódios mais recentes ocorreu no domingo (26), na zona rural de Lábrea, onde três trabalhadores rurais foram mortos em uma emboscada. O caso, registrado na região conhecida como Amacro, envolveu uso de armas de grosso calibre e apresenta indícios de execução por encomenda.
A integrante da articulação das CPTs da Amazônia, Larissa Rodrigues, avalia que os dados refletem o avanço de um modelo histórico de ocupação da região que intensifica a pressão sobre povos tradicionais e territórios.
O levantamento indica que fazendeiros aparecem como principais envolvidos nos assassinatos, sendo responsáveis por 20 dos 26 casos registrados, direta ou indiretamente.
Além das mortes, o relatório mostra crescimento em outros indicadores de violência. As prisões passaram de 71 para 111 casos, registros de humilhação saltaram de cinco para 142 e os casos de cárcere privado aumentaram de um para 105.
Segundo o documentalista Gustavo Arruda, parte desse aumento está relacionada a ações de forças de segurança, especialmente em operações realizadas em estados como Rondônia e Bahia.
No recorte geral, os conflitos por terra continuam predominando, respondendo por 75% dos registros. Na sequência aparecem disputas trabalhistas, conflitos pela água e situações envolvendo ocupações e retomadas.
Entre os grupos mais afetados, os povos indígenas lideram o número de ocorrências, seguidos por posseiros, quilombolas e trabalhadores sem terra.
O relatório também aponta aumento nos casos de trabalho análogo à escravidão, que cresceram 5% em 2025. Ao todo, 1.991 trabalhadores foram resgatados, alta de 23% em relação ao ano anterior.
Um dos casos de maior impacto foi registrado em Porto Alegre do Norte, onde 586 pessoas foram resgatadas em uma obra de construção de usina. Segundo a CPT, os trabalhadores viviam em condições precárias, com falta de água, alimentação inadequada e alojamentos superlotados.
As atividades com maior número de resgates continuam concentradas em setores como construção, agricultura, mineração e pecuária.
Além da divulgação do relatório, a CPT anunciou a criação de uma nova plataforma em parceria com o Instituto Sociedade, População e Natureza. O Observatório Socioambiental reunirá dados históricos sobre conflitos, desmatamento e violações de direitos humanos, permitindo acompanhar a evolução desses indicadores em todo o país.
