“Eu te darei o céu, meu bem, e o meu amor também”.
A clássica canção de Roberto Carlos e Erasmo Carlos talvez seja a trilha sonora mais adequada para acompanhar a eleição da reitoria da Universidade Federal do Acre (Ufac). Em período eleitoral, a universidade parece atravessar uma súbita primavera de promessas. Problemas antigos encontram soluções rápidas, projetos surgem para áreas historicamente negligenciadas e compromissos grandiosos são anunciados com uma generosidade quase celestial.
Se dependesse apenas do discurso de campanha, a Ufac estaria prestes a entrar em uma nova era institucional.
O detalhe curioso é que duas das três chapas que disputam a eleição vêm diretamente da atual gestão da universidade. Uma delas liderada pelo atual vice-reitor. A outra encabeçada por quem comanda a pasta da Pró-Reitoria de Extensão.
E é exatamente aí que começa a ironia política desta eleição.
Porque quando propostas transformadoras surgem repentinamente durante uma campanha, surge também uma pergunta inevitável. Se essas soluções existiam, por que não foram implementadas antes?
Candidaturas que não nascem, são cultivadas
A política universitária raramente produz candidaturas espontâneas. Elas normalmente são construídas ao longo do tempo em articulações discretas, cargos estratégicos e redes de apoio que se consolidam dentro da própria estrutura administrativa da instituição.
Nesse sentido, a candidatura do pró-reitor de Extensão não surgiu de forma inesperada. Trata se de um nome que esteve dentro da gestão, ocupando posição relevante, acumulando visibilidade institucional e transitando pelos espaços de poder da universidade.
Nada disso seria incomum. Universidades são também espaços políticos e a participação em cargos administrativos faz parte da trajetória de muitos gestores.
O que chama atenção é o contexto.
Porque essa candidatura não apenas nasce dentro da gestão. Ela também é, de forma bastante visível, apoiada por ela.
A reitora e o candidato
Nos últimos dias tornou se difícil ignorar um elemento cada vez mais evidente no processo eleitoral da Ufac. O apoio público da atual reitora Guida Aquino à candidatura do pró-reitor.
Preferências políticas, por si só, não são novidade em disputas universitárias. Gestores têm aliados, simpatias e projetos políticos.
O que causa desconforto neste caso é o acúmulo de posições institucionais.
Além de reitora da universidade, Guida Aquino também ocupa a presidência do Colégio Eleitoral Especial, instância responsável por conduzir etapas centrais do processo que culminará na formação da lista tríplice encaminhada ao Ministério da Educação.
Ainda assim, o apoio ao seu candidato tem sido manifestado publicamente e em diferentes momentos da vida institucional da universidade.
A pergunta que inevitavelmente começa a circular entre docentes, técnicos e estudantes é simples.
Até que ponto essa sobreposição entre posição institucional e preferência eleitoral contribui para fortalecer a confiança no processo?
Em eleições universitárias, a percepção de equilíbrio institucional costuma ser tão importante quanto as próprias regras formais.
O vice que virou candidato
Se por um lado a atual gestão parece ter um candidato preferencial, por outro lado a própria eleição produziu uma situação curiosa.
Entre os concorrentes está justamente o atual vice reitor da universidade.
Nos últimos anos não foram poucos os comentários nos corredores da instituição sobre o desgaste dentro da própria administração superior. A relação que no início da gestão parecia uma parceria institucional estável passou a dar sinais de distanciamento político.
Em determinado momento o vice-reitor deixou de aparecer em diversos eventos institucionais representando a administração central, o que alimentou ainda mais a percepção de afastamento dentro da própria gestão.
Agora vê-lo como candidato à reitoria acaba revelando mais uma das ironias desta eleição.
A disputa que deveria ser apenas sobre o futuro da universidade também acaba funcionando como um capítulo das próprias tensões políticas da gestão que se encerra.
O debate e as perguntas da comunidade
Dentro desse cenário eleitoral, um dos momentos mais aguardados deve acontecer no dia 12 de março, às 9 horas, quando ocorrerá o debate entre as chapas candidatas.
A Comissão Eleitoral Especial, presidida pela própria reitora Guida Aquino, disponibilizou um formulário para que estudantes enviem perguntas que poderão ser feitas durante o debate.
A iniciativa abre um espaço importante para participação da comunidade acadêmica. Ainda assim, permanece uma dúvida que circula entre muitos estudantes.
Quais serão exatamente os critérios para a seleção dessas perguntas?
Em um processo eleitoral universitário, transparência não costuma ser apenas uma formalidade. Ela é também um elemento essencial para fortalecer a confiança da comunidade no próprio debate democrático.
Quando identidade vira estratégia eleitoral
Outro elemento que tem aparecido com frequência nesta eleição é o uso crescente de discursos identitários como ferramenta de mobilização política.
A universidade pública tem, sem dúvida, o dever de debater diversidade, inclusão e representatividade. Essas agendas fazem parte das transformações sociais e acadêmicas das últimas décadas e precisam estar presentes em qualquer projeto institucional sério.
O problema surge quando identidade começa a substituir programa.
Quando questões centrais da gestão universitária, como financiamento da pesquisa, infraestrutura acadêmica, permanência estudantil, valorização das carreiras docentes e técnicas ou planejamento institucional, passam a dividir espaço com slogans cuidadosamente direcionados para determinados segmentos eleitorais.
Representatividade importa.
Mas representatividade sem projeto institucional consistente corre o risco de se transformar apenas em estratégia eleitoral.
O céu prometido
Talvez por isso a velha canção continue sendo uma metáfora tão apropriada.
“Eu te darei o céu, meu bem…”
Em tempos de eleição, prometer o céu costuma ser relativamente fácil.
Mais difícil é explicar por que, estando tão perto das decisões institucionais nos últimos anos, alguns candidatos só descobriram agora o caminho para ele.
A comunidade universitária, no fim das contas, não escolhe apenas promessas.
Escolhe trajetórias.
Escolhe responsabilidades.
E escolhe também a capacidade de olhar para o futuro sem fingir que o passado nunca existiu.
Porque na política universitária, assim como na vida, prometer o céu pode até ser fácil.
Difícil mesmo é convencer que quem esteve no comando da terra até ontem não teve nada a ver com o que aconteceu nela.
*Aikon Vitor é repórter da Folha do Acre e estudante de jornalismo da Ufac
