Nos últimos meses, mudanças nas regras para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) passaram a ser vistas como um avanço. A redução de custos e a flexibilização de etapas do processo prometem facilitar o acesso de milhares de brasileiros ao direito de dirigir. Em um país onde o valor para tirar a CNH sempre foi um obstáculo, a medida, à primeira vista, parece justa e necessária.
No entanto, ao observar como essas mudanças vêm sendo aplicadas em alguns estados, surge uma preocupação legítima: até que ponto facilitar não significa comprometer a segurança?
Em estados como o Amazonas, por exemplo, regras foram flexibilizadas de forma ainda mais ampla, chegando ao ponto de deixar de exigir provas práticas fundamentais, como a baliza. O que antes era visto como um teste básico de controle, atenção e noção espacial passou a ser tratado como detalhe dispensável. E é exatamente aí que mora o problema.
Dirigir não é apenas conduzir um veículo em linha reta. O trânsito exige tomada rápida de decisões, domínio do automóvel e respeito ao espaço do outro. Provas práticas não existem para dificultar a vida do candidato, mas para garantir que ele tenha condições mínimas de circular em vias públicas sem colocar vidas em risco.
É inegável que tornar a CNH mais acessível socialmente é um avanço. Menos burocracia e menores custos significam mais oportunidades de trabalho e mobilidade. Contudo, acessibilidade não pode ser confundida com banalização. O trânsito brasileiro já figura entre os mais violentos do mundo, e qualquer mudança que impacte diretamente a formação de novos condutores precisa ser tratada com extremo cuidado.
A pergunta que se impõe é: como serão esses novos motoristas após as mudanças? Teremos condutores mais conscientes ou apenas mais habilitados no papel? A retirada de etapas práticas pode gerar uma geração de motoristas inseguros, despreparados e excessivamente dependentes da sorte — ou da paciência alheia.
O problema não está em modernizar o sistema, mas em fazê-lo sem critérios técnicos claros e uniformes. Quando cada estado interpreta a flexibilização à sua maneira, cria-se um cenário desigual e perigoso. O trânsito não muda de regras ao cruzar uma divisa estadual, e a imprudência tampouco respeita fronteiras.
Facilitar o acesso à CNH é um passo importante. Mas garantir que o condutor esteja, de fato, preparado para dirigir é uma responsabilidade coletiva. Caso contrário, o que hoje parece inclusão pode se transformar, amanhã, em estatísticas ainda mais alarmantes de acidentes, feridos e vidas perdidas.
O futuro do trânsito começa na formação do motorista. E, nesse processo, flexibilizar demais pode custar caro demais.
*Lúcio Costa é jornalista/articulista
