Houve um tempo em que o carnaval era apenas festa.
Exageros? Sempre houve.
Mas havia uma linha — ainda que tênue — entre o sagrado e o entretenimento.
Hoje, a sensação é outra.
O que antes era manifestação cultural tornou-se palco ideológico.
O que antes era festa popular tornou-se instrumento político.
E o que deveria ser expressão artística, por vezes, transforma-se em afronta religiosa — ou em palanque disfarçado.
Não se trata de ser contra o carnaval.
Trata-se de perguntar: estamos confundindo tudo?
Estamos misturando fé com militância?
Espiritualidade com espetáculo?
Convicção religiosa com conveniência política?
Vivemos um tempo em que tudo vira símbolo.
Tudo vira discurso.
Tudo vira bandeira.
Mas fé não é bandeira.
Fé é fundamento.
A política, necessária à organização da sociedade, tem seu lugar.
A religião, necessária à orientação da alma, tem o seu.
A cultura, necessária à identidade de um povo, também.
O problema começa quando os limites deixam de existir.
Quando o altar vira palanque.
Quando o palanque imita altar.
Quando a arte deixa de provocar reflexão e passa a provocar divisão.
A Bíblia diz: “Tudo me é permitido, mas nem tudo convém.” (1 Coríntios 6:12)
A questão não é apenas se pode.
É se deve.
Estamos vivendo um tempo em que a liberdade é defendida — e deve ser.
Mas a responsabilidade parece ter sido esquecida.
Afinal, estamos celebrando cultura ou promovendo agendas?
Estamos exercendo fé ou instrumentalizando Deus?
Estamos defendendo direitos ou apenas testando limites?
Talvez o maior problema não seja o carnaval.
Nem a política.
Nem a religião.
Talvez o problema seja o coração humano —
que facilmente troca princípios por aplausos
e convicções por conveniências.
Misturar o santo com o profano sempre foi possível.
Mas normalizar essa mistura pode custar caro.
Não se trata de moralismo.
Trata-se de coerência.
Não se trata de censura.
Trata-se de consciência.
O Brasil precisa de menos espetáculo e mais responsabilidade.
Menos provocação e mais propósito.
Menos extremismo e mais discernimento.
Porque quando tudo vira palco,
a verdade vira figurante.
E quando a fé vira instrumento,
ela deixa de ser fundamento.
Talvez a pergunta não seja:
“Estamos misturando o santo com o profano?”
Talvez a pergunta seja:
Ainda sabemos o que é santo?
Lúcio Costa
Jornalista/Articulista
