Uma reunião realizada na noite da última sexta-feira (6) de fevereiro marcou o início da articulação de uma frente ampla denominada “Organização Unificada”, com o objetivo de construir uma terceira via para as eleições da reitoria da Universidade Federal do Acre (Ufac). A iniciativa é conduzida por um grupo formado por docentes, técnicos-administrativos e estudantes da instituição e se coloca como oposição às duas candidaturas que já se apresentam no processo sucessório da universidade.
O encontro reuniu mais de 100 participantes dos três segmentos da comunidade acadêmica. Pela maioria dos votos, foram aprovados os nomes da professora Raquel Alves Ishii como pré-candidata à reitoria e da professora Suerda Mara Monteiro Vital Lima como pré-candidata à vice-reitoria. Segundo participantes, ambas “avaliam agora os próximos passos para levar adiante as pré-candidaturas”, a partir da consolidação do projeto político discutido durante a reunião.
A articulação surge como alternativa às candidaturas dos professores doutores Carlos Paula de Moraes, atual pró-reitor de Extensão e Cultura da Ufac, e Josimar Batista Ferreira, atual vice-reitor da instituição. Para integrantes do grupo, “apesar de se apresentarem como opções distintas, as duas candidaturas representam o mesmo projeto político-administrativo”.
Durante o encontro, Raquel Alves Ishii destacou a necessidade de ampliar o debate no processo eleitoral da universidade. “É crucial que propostas outras tenham o mesmo espaço para se apresentar à comunidade acadêmica. Este é o anseio do grupo amplo de docentes, discentes e técnicos administrativos que participaram da nossa reunião”, afirmou.
Segundo ela, “as opções que se colocaram até o momento para a gestão da Universidade Federal do Acre não representam a totalidade da comunidade”. Para a docente, a reunião evidenciou um sentimento de insatisfação com a condução atual da universidade. “O grupo sinalizou que não há pretensão de adotar uma postura de continuidade com o modo que a gestão universitária tem sido feita. Há um consenso sobre a necessidade de se defender o projeto coletivo que foi construído nas lutas sindicais e nos movimentos estudantis ao longo de anos”, disse.
Raquel afirmou ainda que sua pré-candidatura surgiu a partir de uma indicação estudantil. “Me senti honrada e emocionada. São estudantes que estiveram conosco na greve docente de 2024 e conhecem a universidade por dentro. O debate altamente qualificado que fazem é motivo de orgulho para todos nós. Marchar com elas e eles é um privilégio”, declarou.
Ao detalhar as diferenças do projeto defendido pela frente ampla, Ishii afirmou que a proposta se estrutura em três eixos centrais: universidade pública, plural e inclusiva. “Não se pode falar em defender universidade pública e, ao mesmo tempo, aprovar normas que cobram taxas do público. É um contrassenso”, afirmou. Segundo ela, diante da escassez de recursos, o caminho deve ser outro. “Se a universidade é precarizada, que possamos nos unir para cobrar mais recursos e não cobrar novamente da sociedade que já paga seus impostos.”
A professora também defendeu a valorização da diversidade de ideias e a liberdade de posicionamento político no ambiente universitário. “Ter uma posição política é um direito. Um espaço de ensino precisa exercitar continuamente a discordância, sem que se tema por retaliações”, disse.
Raquel Ishii afirmou ainda que o projeto propõe prioridade a grupos historicamente marginalizados. “Há uma dívida histórica que a universidade precisa enfrentar. Pessoas com deficiência, populações indígenas, afrodescendentes, a comunidade LGBTQIAPN+ e outros grupos postos à margem da sociedade precisam ser prioridade”, declarou. Segundo ela, “se há pouco tempo e pouco recurso, é preciso estabelecer prioridades, e pessoas devem ser sempre nossa prioridade”. A docente também citou a necessidade de atenção permanente ao Colégio de Aplicação, especialmente a crianças e adolescentes.
A leitura foi compartilhada por estudantes que participaram da reunião. Joaquim Calixto, formado em Letras Inglês e estudante de mestrado na Ufac, afirmou que a possibilidade de uma terceira via rompe com a continuidade de um mesmo grupo no comando da universidade. “Eu cheguei a ver a segunda gestão inteira e ver esse projeto que está aí já há 16 anos na Ufac continuar. Para mim, era muito aterrorizante”, disse.
Segundo ele, “a possibilidade de ter uma chapa construída pelos movimentos, apoiada pelos movimentos sociais, pelos grupos de esquerda e progressistas da Ufac, é, no mínimo, gratificante”. Para Joaquim, “é um momento de esperança” e “um momento muito bonito e importantíssimo para a universidade”.
Outro estudante, Kayke Mendonça, integrante do Movimento por uma Universidade Popular (MUP), avaliou que a articulação tem forte significado simbólico. “Essa terceira via, da forma como foi construída, marca um ponto simbólico na Ufac”, afirmou. Segundo ele, o processo representa “o não abaixar a cabeça para gestões que a universidade vem sofrendo há anos”.
Kayke disse ainda que a construção coletiva da chapa “é uma demarcação de espaço” e “um marco de enfrentamento a um sistema de sucateamento da universidade”, associado, segundo ele, a grupos que estiveram à frente da administração da instituição nos últimos anos.
As eleições para os cargos de reitor (a) e vice-reitor (a) da Ufac para o quadriênio 2026–2030 já têm data definida. A consulta eleitoral ocorrerá na quinta-feira, 19 de março de 2026, conforme edital publicado na última sexta-feira (30).
De acordo com o documento, a votação será realizada de forma on-line, das 8h às 21h. Estão aptos a votar docentes e técnicos-administrativos em exercício, além de estudantes regularmente matriculados nos cursos de graduação, pós-graduação e no Colégio de Aplicação, desde que tenham 16 anos ou mais na data da eleição.
A definição oficial das chapas e dos programas de gestão deverá ocorrer nas próximas semanas, à medida que o processo eleitoral avance e que os grupos políticos consolidem suas propostas junto à comunidade universitária.
