“Há notícias que nos informam. Outras nos ferem. A que chegou de Itumbiara não apenas interrompeu a rotina — ela nos obrigou a encarar um abismo.”
No município de Itumbiara, em Goiás, uma notícia que deveria ser impossível de conceber assalta nossa consciência: um pai tirou a vida de seus dois filhos menores e, em seguida, a própria. O motivo, segundo as primeiras informações, foi uma traição extraconjugal — uma dor de adultério transmudada em assassinato e suicídio.
O choque imediato nos lança a uma pergunta brutal e necessária: o que está acontecendo com a humanidade?
Porque ainda acreditamos, no fundo, que o amor deveria ser redenção.
Porque a Bíblia — Palavra de Deus que atravessa séculos — diz que “o amor tudo suporta, tudo crê, tudo espera”, (1 Coríntios 13).
Esse amor paciente, íntegro e eterno deveria ser o arquétipo do sentimento humano.
E, no entanto, aqui estamos.
Mortes violentas. Famílias destruídas. Gritos que não voltam.
Será que ainda existe amor no ser humano?
Não, não estou perguntando se existem gestos de afeto entre as pessoas — esses ainda acontecem. Mas a essência do amor que nos torna humanos — compreensivo, compassivo, resiliente — parece estar cada vez mais escassa.
O amor que alegamos sentir muitas vezes se revela um reflexo distorcido de nós mesmos:
— egoísmo disfarçado de entrega,
— possessividade travestida de paixão,
— dor de perda transformada em ódio,
— carência confundida com necessidade de controle.
Estamos vivendo tempos onde feridas emocionais profundas — muitas vezes sem suporte, sem escuta, sem acolhimento — transbordam em violência.
E a pergunta que ninguém quer fazer, mas que precisamos encarar:
Não será que o que mata não é o amor — mas a nossa incapacidade de amar de verdade?
O amor verdadeiro não exige posse.
Não mata.
Não destrói vidas por ciúmes, medo, vingança ou orgulho.
O amor salva mesmo quando dói. Ele dá espaço, mesmo quando machuca.
Ele não exige exclusividade — ele escolhe a presença livre.
E a tragédia de Itumbiara é, em última análise, um espelho.
Um espelho que reflete não apenas os atos de um homem devastado, mas a fragilidade do nosso entendimento sobre o que é amar.
O amor que a Bíblia descreve, o amor capaz de suportar tudo, não é um sentimento fraco.
É um compromisso com a vida, com a dignidade do outro, com o cuidado e a paciência que evita genocídios íntimos.
A pergunta que fica, então, não é apenas:
Por que as pessoas estão matando “em nome do amor”?
Mas: Por que confundimos desejo com amor?
Por que deixamos que a dor se transforme em ódio?
E por que estamos tão desarmados emocionalmente diante da frustração, da traição, da perda e da imperfeição humana
Amar não é possuir.
Amar não é destruir.
Amar é criar, preservar e cuidar — especialmente quando dói.
E é essa capacidade de amar que, hoje mais do que nunca, precisamos resgatar.
Lúcio Costa é jornalista/articulista
