Recentemente, ganhou repercussão nacional o caso de técnicos de enfermagem em um hospital de Brasília acusados de matar pacientes internados. Um episódio que causa indignação, medo e uma pergunta perturbadora: até onde pode chegar a insanidade humana?
De um lado, profissionais da saúde que estudam, se preparam e fazem juramentos para cuidar da vida. Do outro, pacientes em extrema vulnerabilidade, deitados em leitos hospitalares, confiando plenamente em quem deveria protegê-los e auxiliá-los na busca pela cura. Quando essa relação de confiança é quebrada de forma tão brutal, toda a sociedade é atingida.
O Sistema Único de Saúde (SUS) já enfrenta inúmeras complexidades para garantir consultas, exames e internações. Muitas vezes, quem tem condições financeiras recorre a planos de saúde acreditando encontrar um atendimento mais ágil e humanizado. No entanto, o que se vê, em alguns casos, é a presença de “profissionais” dispostos não a cuidar, mas a causar danos irreparáveis.
O caso brasileiro remete a uma história conhecida internacionalmente. Nos Estados Unidos, o enfermeiro Charles Cullen inspirou o filme O Enfermeiro da Noite (The Good Nurse, 2022), baseado em fatos reais. Cullen trabalhou durante 16 anos em diversos hospitais de Nova Jersey e confessou ter assassinado dezenas de pacientes por meio da aplicação de doses letais de medicamentos. Estima-se que o número de vítimas possa ultrapassar 300. O mais alarmante é que ele mudou de hospital diversas vezes, mesmo diante de suspeitas recorrentes.
A pergunta que permanece é inevitável: trata-se apenas de indivíduos com distúrbios graves, como a psicopatia, ou há também falhas institucionais, negligência na fiscalização e na proteção dos pacientes? Até que ponto hospitais e sistemas de saúde falham ao não identificar, investigar e afastar profissionais que representam risco?
O fato é que episódios como esses revelam algo ainda mais profundo: uma crise de valores, empatia e humanidade. Quando o espaço destinado ao cuidado se transforma em cenário de violência, é sinal de que algo está profundamente errado.
A humanidade, ao que tudo indica, está doente — e o diagnóstico exige mais do que punições individuais. Exige reflexão, responsabilidade institucional e, sobretudo, compromisso real com a vida.
Lúcio Costa é jornalista/articulista

