Uma reportagem publicada pela revista piauí levantou questionamentos sobre um possível conflito de interesses envolvendo a agenda de promoção do café conduzida por Jorge Viana, presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), durante a visita de compradores internacionais ao Acre, em novembro de 2025. O foco da apuração recai sobre a inclusão de uma propriedade pertencente ao próprio dirigente na rota de apresentação do café acreano ao mercado externo.
O café tem peso relevante na balança comercial brasileira. Somente em novembro do ano passado, o Brasil exportou 3,5 milhões de sacas de 60 quilos, volume inferior ao registrado no mesmo período de 2024, quando foram vendidas 4,8 milhões de sacas. Apesar da queda de 26,7% na quantidade exportada, a receita cambial cresceu 8,9%, saltando de US$ 1,4 bilhão para US$ 1,5 bilhão. Mesmo diante de tensões comerciais internacionais, os Estados Unidos seguem como o principal destino do produto brasileiro.
Nesse contexto, a ApexBrasil trouxe ao Acre, no início de novembro, uma comitiva formada por nove compradores internacionais de quatro continentes – América do Norte, Europa, África e Ásia – para conhecer a produção local de café robusta amazônico (Coffea canephora), variedade desenvolvida pela Embrapa e adaptada às condições climáticas da região. Mais intenso e encorpado que o café arábica, o robusta vem ganhando espaço no mercado nacional e internacional.
Durante o roteiro, os compradores visitaram diversas propriedades de cafeicultores acreanos. Entre elas, segundo a piauí, esteve a Colônia Floresta, localizada no município de Senador Guiomard, a cerca de 25 quilômetros de Rio Branco. A propriedade pertence a Jorge Viana, que acompanhou pessoalmente os visitantes na apresentação da plantação. A informação não constava inicialmente na divulgação oficial da ApexBrasil, mas foi confirmada pelo presidente da CooperCafe, Jonas Lima, cooperativa que reúne produtores de café no estado.
A Colônia Floresta recebeu, no segundo semestre de 2023, licença ambiental para o cultivo de café robusta amazônico em uma área de 20,44 hectares. Em maio de 2024, já à frente da ApexBrasil, Viana promoveu um evento simbólico para marcar a primeira colheita, com cobertura da imprensa local. A produção, no entanto, ainda é considerada de pequena escala.
De acordo com a CooperCafe, a visita da comitiva internacional teve como objetivo ampliar as vendas do café acreano e já teria gerado resultados, como a comercialização de dois contêineres do produto para Dubai. A cooperativa também participou de eventos nacionais e internacionais voltados à exportação, incluindo a Semana Internacional do Café, em Belo Horizonte, iniciativa promovida pela ApexBrasil.
Procurada pela revista, a ApexBrasil negou que tenha havido favorecimento à propriedade de Jorge Viana. Em nota, a agência afirmou que nenhuma saca de café da Colônia Floresta foi vendida durante a visita dos compradores e que o presidente não exporta café nem integra sua produção aos negócios intermediados pela instituição. Segundo o comunicado, a passagem pela propriedade ocorreu no contexto institucional da agenda e teve como objetivo apresentar práticas de cultivo compatíveis com a preservação da floresta, tema de interesse do mercado internacional.
A ApexBrasil também sustenta que a visita à Colônia Floresta se deu por estar no trajeto até outra propriedade incluída oficialmente na agenda, reforçando o discurso de promoção de uma matriz econômica baseada na sustentabilidade. A possível venda de café da propriedade de Jorge Viana, portanto, não foi confirmada, mas a inclusão da área no roteiro de compradores internacionais motivou o debate levantado pela reportagem.
