terça-feira, 13 janeiro 2026

Evolução do cérebro humano pode ter favorecido o surgimento de traços do autismo, apontam estudos

Por Kauã Lucca, da Folha do Acre

Novos estudos apontam relação entre evolução humana e aumento de traços do espectro autista

A compreensão científica sobre o transtorno do espectro autista (TEA) passa por um período de revisão conceitual. Tradicionalmente associado a alterações no neurodesenvolvimento que impactam a comunicação, a interação social e o processamento sensorial, o autismo começa a ser analisado também sob uma perspectiva evolutiva, a partir de pesquisas recentes nas áreas de genética e neurociência.

Estudos ligados à Psicologia Evolucionista e à Genética de Populações vêm levantando a hipótese de que determinados traços associados ao TEA podem ter sido preservados ao longo da evolução humana. A explicação estaria relacionada a vantagens cognitivas específicas, como elevada capacidade de sistematização, atenção a padrões e processamento lógico, características que aparecem com maior frequência em parte das pessoas dentro do espectro.

Evolução cerebral e genética

Um dos trabalhos que reforçam essa abordagem foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Stanford e publicado na revista científica Molecular Biology and Evolution. O estudo analisou neurônios excitatórios do neocórtex, região do cérebro fundamental para funções cognitivas complexas, como raciocínio abstrato e linguagem.

Os pesquisadores identificaram que esse tipo de neurônio apresentou uma evolução acelerada na linhagem humana quando comparado a outros primatas. Ao mesmo tempo, observaram uma redução na expressão de determinados genes cuja menor atividade está estatisticamente associada a maior probabilidade de diagnóstico de TEA. Segundo os autores, esse processo sugere que avanços cognitivos importantes podem ter ocorrido em paralelo a mudanças genéticas que aumentaram a presença de traços autísticos na população.

Crescimento nos diagnósticos

Dados recentes do Centers for Disease Control and Prevention indicam que, atualmente, uma em cada 36 crianças nos Estados Unidos é diagnosticada dentro do espectro autista. Especialistas destacam que esse aumento está relacionado, em grande parte, à ampliação dos critérios diagnósticos, maior acesso à informação e melhoria nos métodos de identificação precoce.

Ainda assim, pesquisas semelhantes vêm sendo registradas em países como Reino Unido, Dinamarca, Japão e Coreia do Sul, o que mantém o debate científico sobre a possibilidade de fatores genéticos e sociais também influenciarem esse crescimento.

Organização social e padrões cognitivos

Entre as teorias discutidas está a do acasalamento assortativo, proposta pelo psicólogo e neurocientista britânico Simon Baron-Cohen. A hipótese sugere que ambientes acadêmicos e tecnológicos tendem a reunir pessoas com perfis cognitivos semelhantes, especialmente aquelas com maior capacidade de sistematização. Esse contexto poderia aumentar a probabilidade de que características genéticas associadas a esses traços sejam transmitidas de forma combinada às gerações seguintes.

Pesquisadores ressaltam que o espectro autista é amplo e heterogêneo, reunindo diferentes níveis de suporte e habilidades. Nem todos os indivíduos apresentam altas capacidades cognitivas, o que reforça a necessidade de abordagens cuidadosas e baseadas em evidências.

Desafios para o futuro

Especialistas apontam que o avanço desse debate traz implicações importantes para áreas como educação, saúde e políticas públicas. O crescimento no número de diagnósticos reforça a demanda por sistemas educacionais mais preparados para lidar com a diversidade neurológica e por estratégias de inclusão que considerem as diferentes necessidades de desenvolvimento.

A literatura científica destaca que a neurodiversidade vem sendo cada vez mais compreendida como parte da variação natural da espécie humana. Nesse contexto, o foco das discussões tem se voltado para a adaptação das estruturas sociais, educacionais e institucionais, de modo a garantir participação, dignidade e acesso a direitos para pessoas com diferentes perfis cognitivos.

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