quinta-feira, 22 janeiro 2026

Enamed: médico aponta descompasso entre ensino superior privado e prática no SUS

Por André Gonzaga, da Folha do Acre

Resultado mostra desigualdades entre instituições e leva a punições aplicadas pelo MEC

O resultado do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), divulgado na última segunda (19/1), revelou que quase 13 mil estudantes não atingiram o nível mínimo de domínio de conteúdo. Dos 39.258 concluintes, apenas 67% demonstraram preparo suficiente para atuar na área. Os dados revelam fragilidades na formação e colocam em xeque a qualidade de parte significativa dos cursos oferecidos no país.

Para compreender as razões desse baixo desempenho, a análise do médico Matheus Ferreira, de Blumenau (SC), ganha relevância. Especialista em inovação, com formação em Health Tech pela Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap) e MBA em Gestão em Saúde pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), ele atua no desenvolvimento de soluções de aprendizagem e monitoramento de pacientes crônicos com uso de inteligência artificial.

Segundo Ferreira, o exame não testou memorização, mas a capacidade de aplicar conhecimentos na realidade do Sistema Único de Saúde (SUS). “O Inep [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira] não está testando se o aluno decorou. Está testando se ele sabe fazer medicina no SUS real. Muitas faculdades ainda ensinam para um mundo que não existe mais”, afirmou.

O especialista analisou a matriz da prova e identificou padrões que ajudam a explicar o resultado. “62% das questões estavam em cenários de unidades básicas de saúde [UBS], mas a maioria dos internatos ainda é hospitalar. 80% da prova exigia aplicação prática supervisionada, não decoreba. E quase 90% do conteúdo estava no nível esperado para alunos do quarto ano, mostrando que investir apenas na reta final não garante preparo”, destacou.

Os números confirmam desigualdades crônicas. Apenas 49,7% dos estudantes das faculdades municipais alcançaram o nível mínimo. Nas privadas com fins lucrativos, 57,2% mostraram proficiência. Já nas federais, o índice foi de 83,1%. O resultado levou à suspensão de oito cursos, corte de metade das vagas em 13 e redução de 25% em outros 33. Todas as instituições punidas foram excluídas do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).

Como resume Matheus Ferreira, “quem paga a conta é o paciente que vai ser atendido por alguém que não deveria ter passado”.

A repercussão foi imediata. A Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) questiona a avaliação na Justiça e tenta suspender as punições. O Conselho Federal de Medicina (CFM) discute se os candidatos que não atingiram a nota mínima terão direito ao registro profissional. No Congresso, tramita a proposta de criar um exame nacional de proficiência em medicina, semelhante ao da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

No centro dessa discussão estão milhares de jovens e adultos que investiram anos e recursos em sua formação. Questionado sobre as consequências do resultado do Enamed, o ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou que “nenhum aluno será prejudicado” e que o objetivo “não é aplicar sanções ou penalidades intencionais a qualquer instituição, mas assegurar a formação de médicos de qualidade”.

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