O Brasil deixará de representar os interesses diplomáticos e consulares da Argentina na Venezuela. A decisão foi tomada após sucessivas manifestações do presidente argentino, Javier Milei, com críticas diretas e indiretas ao Brasil e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas redes sociais. A expectativa é que a Itália assuma a tutela da embaixada argentina em Caracas.
Desde setembro de 2024, o governo argentino não mantém corpo diplomático na Venezuela, após a expulsão de seus representantes pelo regime de Nicolás Maduro. Na ocasião, o Brasil passou a responder pelos interesses argentinos no país vizinho, assumindo funções diplomáticas e consulares, além de intermediar diálogos sensíveis com o governo venezuelano.
De acordo com fontes do governo brasileiro ouvidas pela CNN Brasil, o desgaste recente comprometeu a confiança necessária para a continuidade da representação. “Após várias mensagens agressivas de Milei nas redes sociais, a avaliação é de que não há mais confiança entre os dois governos para que o Brasil continue exercendo esse papel”, afirmou uma fonte sob condição de anonimato.
Entre as publicações que causaram desconforto diplomático está uma postagem em que Milei comemorou a captura de Nicolás Maduro, acompanhada de um vídeo que terminava com uma imagem do presidente Lula abraçado ao líder venezuelano. Outra publicação que desagradou o governo brasileiro foi a repostagem de uma imagem que retrata a América do Sul de forma dividida: países como Brasil, Colômbia, Uruguai e Venezuela aparecem representados como uma grande favela, enquanto Argentina, Chile e Paraguai são ilustrados como centros urbanos futuristas e desenvolvidos.
A imagem foi compartilhada por Milei em seu perfil oficial no Instagram um dia após a vitória de José Antonio Kast, candidato de ultradireita, nas eleições presidenciais do Chile. Kast assumirá o comando do país em março de 2026, encerrando o governo de esquerda de Gabriel Boric. Com o resultado, o equilíbrio político da América do Sul se divide igualmente entre governos de direita e esquerda, com seis países sob cada orientação.
Apesar do atual rompimento, o Brasil desempenhou papel central na proteção dos interesses argentinos em Caracas. Em agosto de 2024, a bandeira brasileira foi hasteada no prédio da embaixada argentina, após o Itamaraty assumir oficialmente a tutela da representação. O governo brasileiro também intermediou contatos com o regime de Maduro para garantir condições mínimas de sobrevivência a refugiados venezuelanos que estavam na embaixada e solicitou informações sobre um agente da gendarmaria argentina preso no país, assumindo riscos de desgaste diplomático com o governo venezuelano.
Na época, Milei chegou a agradecer publicamente ao Brasil pelo gesto diplomático. “Os laços de amizade que unem a Argentina e o Brasil são muito fortes e históricos”, escreveu o presidente argentino nas redes sociais.
Segundo fontes do governo brasileiro, no entanto, o cenário mudou com o agravamento das tensões políticas e a alteração das circunstâncias em Caracas, especialmente após a captura de Nicolás Maduro. “Fica difícil para um país que está do lado do ‘câncer do socialismo’ representar os interesses argentinos. É até incoerente com a própria visão do Milei”, afirmou uma das fontes.
Com isso, o Brasil encerra o ciclo de representação dos interesses argentinos na Venezuela, abrindo espaço para que a Itália assuma a função diplomática nos próximos meses.
