Vivemos tempos em que a indignação virou rotina. E isso, por si só, já deveria nos alarmar.
Quando adolescentes são capazes de torturar e matar um animal indefeso, a pergunta central não é apenas quem fez, mas o que falhou antes disso acontecer. Falhou a família, falhou a educação, falhou o limite. Amar não é ceder sempre. Amar é corrigir, impor regras, ensinar consequências.
Há quem afirme que esses jovens “precisam de Deus”. A fé, no entanto, não substitui responsabilidade. Valores morais não surgem do acaso; são construídos com orientação, acompanhamento e limites claros. Casos de crueldade extrema contra animais exigem atenção séria do Estado, acompanhamento psicológico e respostas firmes da sociedade.
A história demonstra que a violência raramente surge de forma abrupta. Ela se desenvolve. Começa pequena. Começa, muitas vezes, com animais. No Brasil, em 2025, um caso amplamente noticiado revelou esse padrão: Ana Paula Veloso Fernandes, então universitária, foi apontada pela polícia como responsável pela morte de pessoas após um histórico de maus-tratos e mortes de cães. Os sinais estavam lá.
Nos Estados Unidos, o mesmo roteiro se repetiu com Jeffrey Dahmer, conhecido como “O Canibal de Milwaukee”. Antes de cometer assassinatos em série, ainda na adolescência, praticava atos de extrema crueldade contra animais. O alerta existia. Foi ignorado.
Ao comparar esses dois contextos, surge uma diferença fundamental: a resposta institucional. Onde há leis claras, aplicadas com rigor, existe ao menos a tentativa de interromper o ciclo antes que a violência atinja níveis irreversíveis. Onde há omissão, relativização ou conivência, o resultado costuma ser trágico.
O que não podemos é fingir surpresa depois. A violência extrema não nasce do nada. Ela é anunciada — e ignorá-la é, de certa forma, permitir que se concretize.
Lúcio Costa é jornalista e doutorando em Ciências da Comunicação
