Todos desconfiam que há algo errado. O sistema dá sinais. Os números não fecham. A lógica falha. Mesmo assim, milhões apostam, não por ignorância, mas por conformismo.
A chamada Mega-Sena da Virada deixou de ser apenas um jogo de azar e passou a simbolizar algo maior: um país que sabe que está sendo enganado, mas insiste em acreditar. À luz da Lei nº 9.613/98, das normas que regulam apostas (Lei nº 14.790/23) e da própria estrutura do crime organizado (Lei nº 12.850/13), surge uma pergunta incômoda, porém inevitável: estaria o maior jogo do país servindo também como instrumento de lavagem do sonho coletivo e, em alguns casos, do próprio dinheiro?
A lavagem de dinheiro, conforme prevista na Lei nº 9.613/98, pode ocorrer por intermédio do uso de jogos de loterias ,aqui compreendidos em sentido lato sensu quando se tenta fazer com que fundos obtidos ilegalmente aparentem ter origem em ganhos legítimos de apostas. Trata-se de um processo conhecido, estruturado e didaticamente dividido em fases, cuja lógica é antiga, mas cujas formas se sofisticam conforme o sistema permite.
A primeira fase é a COLOCAÇÃO. Nela, o dinheiro ilícito, normalmente oriundo de atividades criminosas, o chamado dinheiro vivo, é inserido no sistema financeiro. Isso ocorre, muitas vezes, por meio de apostas de alto valor, aquisição de bilhetes supostamente premiados, jogos eletrônicos popularmente conhecidos como “tigrinhos” ou outras modalidades de apostas, inclusive aquelas recentemente disciplinadas pela Lei nº 14.790/23.
Superada a colocação, inicia-se a OCULTAÇÃO, o chamado layering. Nessa etapa, os valores passam por diversas transações sucessivas, fragmentadas e organizadas de forma criminosa, nos moldes descritos pela Lei nº 12.850/13, com o objetivo de dificultar ou impossibilitar o rastreamento de sua verdadeira origem. São exemplos recorrentes a compra e revenda de bilhetes de loteria, a circulação de valores por diferentes casas lotéricas, cassinos ou estruturas paralelas, tudo cuidadosamente desenhado para confundir o controle estatal.
Por fim, alcança-se a fase da INTEGRAÇÃO. Aqui, o dinheiro já “lavado”, agora formalmente aceito, é reintroduzido na economia formal como se fosse legítimo, límpido e idôneo. No contexto das loterias, tal prática pode envolver a apresentação de um bilhete premiado verdadeiro ou fraudado ,adquirido com dinheiro ilícito, de modo que o recebimento do prêmio oficial passe a aparentar apenas um golpe de sorte. O ilícito se dissolve na aparência de legalidade.
Essas práticas, longe de serem exceção, caminham para se consolidar como fato social, nos termos de Durkheim, além de fenômeno econômico e jurídico relevante no Brasil contemporâneo.
Sob essa perspectiva, a chamada Mega-Sena da Virada revela-se como um retrato simbólico do país. Ela expressa uma situação em que todos sabem que há algo errado, sentem que estão sendo enganados, mas não conseguem provar. As evidências permanecem ocultas, inacessíveis ou institucionalmente blindadas, pois o próprio sistema não permite sua exposição. E, quando se exige prova, esbarra-se no ônus previsto no art. 156 do Código de Processo Penal.
Ainda assim, aposta-se.
Acredita-se que “uma hora vai dar certo”, que “desta vez sai”, ignorando-se que o Brasil figura entre os países com maior carga tributária do mundo, somada a um Estado reconhecidamente voraz, que jamais abdica de arrecadar. Soma-se a isso um Poder Judiciário cujo custo supera, proporcionalmente, o da própria realeza britânica, criando-se a ilusão de que se paga por um país de primeiro mundo, quando, na prática, vive-se em condições de terceiro.
Terceiro mundo porque cerca de 90 milhões de brasileiros ainda não têm acesso ao saneamento básico, realidade expressamente enfrentada ao menos no plano normativo pela Lei nº 11.445/07. O problema, contudo, não é apenas técnico ou financeiro; é sobretudo comportamental. O povo sabe que está sendo enganado, mas não rompe com o sistema. Ao contrário, aposta nele.
Compra o bilhete. Paga o imposto.Paga a conta.Faz piada. E aceita.Por quê?
Talvez não falte fé. O que falte seja despertar.
Enquanto se aguarda um prêmio que estatisticamente nunca virá e, com ele, uma mudança de vida igualmente improvável normaliza-se o engano, legitima-se o sistema e transforma-se a esperança em mecanismo de sobrevivência. Crê-se que o sistema funciona porque assim dizem seus gestores.
E funciona mesmo. Funciona exatamente para quem nunca quis que o povo ganhasse.
No fim, a Mega-Sena não é apenas um jogo. É um espelho. Um retrato de um povo que sabe que algo está errado, mas continua apostando.
