terça-feira, 27 janeiro 2026

Anitta curte relato de Germano Marino sobre práticas mais humanas e acolhedoras no candomblé

Por André Gonzaga, da Folha do Acre

A cantora Anitta, que professa fé nas religiões de matrizes africanas, curtiu uma publicação nas redes sociais do babalorisá Germano Marino, da Nação Ketú, em que o acreano narra como a feitura do santo mudou desde a década de 1990. O gesto da artista ampliou a repercussão de um debate interno sobre os ritos, antes marcados por rigidez e desconforto, e hoje repensados com mais cuidado e acolhimento.

Iniciado há mais de três décadas em Oxum, Marino recorda que os terreiros eram escolas e que os aprendizados vinham diretamente dos pais e mães de santo, sem apoio de tecnologia. Ele também descreve práticas duras, como permanecer dias recolhido em calor extremo, sem ventilador, sem travesseiro, comendo com a mão e sem acesso a cuidados básicos. Para ele, essas experiências foram parte da formação, mas não devem ser confundidas com prova de fé.

Com maturidade, afirma que não alterou fundamentos nem rituais, mas que passou a acolher melhor. Em vídeo recente, explicou que na sua casa o iaô, filho de santo, come bem e com colher de plástico, para evitar queimaduras e desperdício. “Já passou o tempo da escravidão. Isso não existe mais. Estamos na modernidade. O orixá não vai deixar de acompanhar alguém porque usou colher”, disse.

Para o babalorisá, o maior fundamento é tratar bem, sem discriminação por gênero, orientação sexual, origem ou condição econômica. Na postagem, ele compartilhou fotografias antigas de sua Ódún Metá, rito de passagem que se faz após três anos de iniciação, ressaltando que são sagradas e devem ser tratadas com seriedade.

“Naquele tempo, meu pai de santo fez questão de registrar em foto, porque era assim que se comprovava uma obrigação. Os filmes eram revelados e guardados apenas para nós, com zelo e silêncio. Hoje, eu compartilho essas imagens não como exposição, mas como memória histórica. Faço isso pedindo bênção, com muito cuidado e com muito respeito, porque isso não é algo que se deva fazer levianamente. Imagem de obrigação é fundamento, é história, é sagrado”, concluiu.

As falas de Germano Marino ecoam como convite à reflexão. O candomblé, que é uma tradição ancestral, também atravessa a modernidade sem perder sua essência, mas ganhando em humanidade.

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