Se plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro são consolidações de um legado, então Gilberto Farias, o Trottamondos, deixará um legado múltiplo e incapaz de se dissolver.
Ele viveu com a intensidade que poucas pessoas conseguem durante toda a existência. Deu a volta ao mundo por três vezes, conheceu 142 países andando de bicicleta, escreveu 12 livros, produziu 17 documentários e foi pai de 32 filhos de 17 nacionalidades diferentes.
Ao morrer na tarde desta quarta-feira (31), no último dia do ano de 2025, Trottamondos impõe ao Acre um doloroso luto. Os acreanos, principalmente os jornalistas acostumados a ouvir suas incríveis histórias, sabem que perdem um dos seus filhos mais corajosos, aventureiros e desbravadores do mundo. Ele morreu em São José dos Pinhais ao lado de Dirla Paula de Souza, sua esposa há mais de 18 anos, e a quem ele atribuía a fábula de ser um amor de outras vidas e que ele reencontrou.
“Ela vai ser minha última esposa, com ela vou viver até o final, foi uma sorte reencontrar ela nessa vida”, disse na última entrevista concedida à jornalista Gina Menezes.
Gilberto Trottamondos começou suas aventuras de bicicleta em 1980 e nunca mais parou. A última que vez foi do Acre até São José dos Pinhais, em julho. “Viajar, conhecer pessoas, culturas é a melhor coisa que existe no mundo”, declarou.
Gilberto colecionava memórias como ele mesmo costumava dizer, tinha uma alma inquieta, de acordo com amigos e familiares. Não foi à toa que virou referência cultural, divulgando a história amazônica e inspirando pessoas a viajar. Mesmo recentemente enfrentando desafios de saúde, sua história nunca foi de acomodação e, por isso, saiu do Acre no meio do ano em busca de uma vida melhor para os filhos menores.
Ele nasceu no seringal Nova Empresa, mas apesar da paixão pelo Acre achou que aqui não era o limite. Queria ser astronauta, mas aí Gilberto Bezerra de Farias percebeu que não queria ver a terra de fora dela, acreditando que a beleza mais importante que havia para conhecer eram as pessoas e a cultura de cada povo. Sair de seu estado e do país para estudar foi o pontapé inicial na realização de seu sonho.
Trottamondos deu a volta ao mundo de 1981 a 1996. Reiniciou a aventura ainda em 1996 e que terminaria somente em 2010. Gilberto mostrava no semblante e jeito de falar toda a simplicidade do homem do seringal. Com uma memória surpreendente, se tornou uma enciclopédia ambulante, onde armazenou diversos dados históricos, geográficos e culturais dos lugares que visitava há décadas. Falava seis idiomas.
Gilberto era de família tradicional no estado, com mais de 100 anos de história. Quando saiu do seringal foi morar, em 1970, em Manaus, depois Brasília. Mas foi no Rio de Janeiro que se formou em engenharia eletrônica. Com o sonho de ser astronauta, conseguiu uma bolsa de estudos e foi fazer engenharia nuclear em Houston, nos Estados Unidos.
O encanto logo acabou e Trottamondos decidiu que não queria ver a beleza da terra de fora dela.
“A vida de astronauta é muito triste e vazia, tem que gostar muito para ser um. Optei em ver o mundo real, seus habitantes e escolhi a bicicleta porque é o veículo que me aproxima das pessoas. Sou um cicloturista e isso agrada muita gente porque sou visto como um esportista” dizia.

