O Peso invisível: As dores que uma mulher carrega
Há um fardo que nenhuma balança mede. Ele não se traduz em números, não se vê a olho nu, mas pesa nos ombros, na alma, na pele. Infiltra-se nos sorrisos forçados, nas noites mal dormidas, nos sonhos adiados. Esse fardo é a soma de todas as dores que uma mulher carrega — físicas, emocionais e sociais.
A dor do corpo: quando a carne grita
Desde o primeiro ciclo menstrual até o último sopro da maturidade, o corpo da mulher é uma arena de batalha. Cólicas que retorcem o ventre como lâminas invisíveis. As dores do parto, um limiar entre a vida e a morte. As enxaquecas que latejam após um dia exaustivo de trabalho e cobranças. As marcas da violência — muitas vezes escondidas sob a maquiagem, sob o silêncio, sob o medo.
A dor física de uma mulher não é só sua. É normalizada, ignorada, minimizada. “É frescura”, dizem. “É exagero.” Mas nenhuma dor deve ser desmerecida, pois cada uma conta uma história de resistência.
A dor da emoção: A alma que sangra
Dentro da mente feminina, travam-se guerras invisíveis. O medo de não ser suficiente. A culpa por escolher a si mesma antes dos outros. A pressão para ser perfeita — boa filha, boa mãe, boa esposa, boa profissional. A solidão no meio de uma multidão. O luto pelo que nunca aconteceu, pelos sonhos deixados para trás, pelas versões de si mesma sacrificadas para agradar ao mundo ou alguém que, na primeira oportunidade, virou as costas levando sua paz, seus sonhos, sua juventude.
A ansiedade que acelera o coração sem motivo aparente. A depressão que consome a alegria, mesmo quando tudo ao redor parece bem. A exaustão emocional de ser julgada o tempo todo — pelo que veste, pelo que diz, pelo que sente, pelo que escolhe.
A dor social: O mundo que aprisiona
Ser mulher é andar com medo. É atravessar a rua ao notar passos atrás. É carregar chaves entre os dedos, como armas improvisadas. É medir cada palavra para não parecer “agressiva demais” nem “submissa demais”. É ver seu valor reduzido ao corpo, à idade, à aparência, à sua utilidade.
É precisar trabalhar o dobro para ser reconhecida. Ganhar menos pelo mesmo esforço. Ter sua voz interrompida em reuniões, suas ideias apropriadas por outros. Ser questionada sobre a maternidade antes mesmo de ser perguntada sobre seus sonhos.
E, talvez, a dor mais silenciosa e cruel de todas: a de não ser ouvida. De gritar e ser chamada de histérica. De chorar e ser chamada de fraca. De lutar e ser chamada de exagerada.
Os medos que nos definem
O medo de não ser amada. O medo de ser traída. O medo de envelhecer. O medo de não dar conta. O medo de não ser mãe. O medo de ser mãe e falhar. O medo de falar e ser atacada. O medo de calar e se perder de si mesma.
O medo de sair à noite. O medo de ser julgada. O medo de ser rejeitada. O medo de nunca ser suficiente. O medo de ser esquecida.
O medo de existir em um mundo que constantemente tenta diminuir o espaço das mulheres.
Mas ainda assim, resistimos
Mesmo com todas essas dores, há algo indestrutível dentro de cada mulher. Uma força ancestral vinda de todas as que vieram antes, das que caíram e levantaram, das que gritaram quando ninguém queria ouvir.
Cada cicatriz é um testemunho de sobrevivência. Cada lágrima que secou se transformou em aprendizado. Cada medo enfrentado se tornou um grito de liberdade.
A dor existe, mas não define. A mulher é muito mais do que seu sofrimento. Ela é resistência, é vida, é poder.
E mesmo que o mundo tente esmagá-la, sempre haverá uma centelha dentro dela pronta para reacender o fogo que nunca deveria ter sido apagado.
Taiane Santos é presidente municipal do Solidariedade, e Diretora na Secretaria de Estado da Casa Civil